Deu aula em cursinho a fim de sobreviver, para onde me levou como professor de literatura brasileira, sabendo que não se podia envelhecer dando aula em cursinho. Nasceu em Piracicaba, 1945, formado em História pela USP, com o tempo tornou-se especialista em alimentação e culinária. Perdão: D’Albuquerque não era especialista em nada. Exímio historiador. Nos momentos cruciais de minha vida lá estava ele. Quando lancei O Príncipe da Moeda no Rio de Janeiro, 1997, trazia na mala um calção para ir à praia numa época em que intelectual não mais ia à praia. Mais velho quatro anos, marxista, comunista, nacionalista, polígrafo, foi preso várias vezes pela ditadura 64 e nunca costeou o alambrado, ou seja, não se corrompeu.
Visitou Leonel Brizola no exílio em Montevidéu a fim de entrevistar o escritor Paulo Schilling. Contou-me que lá havia um gaúcho que dava uns tiros para o alto da janela do apartamento do Brizola comemorando alguma coisa de que não me recordo. Leonel Brizola pedia para o seu conterrâneo conter a euforia: acalma-te! Às tantas Brizola falou para o gauchão sair pelos fundos para não dar bandeira. A resposta foi a seguinte: - doutor Brizola, vai me desculpar, gaúcho não sai pela porta do fundo.
Estava lá Ricardo Frota D’Albuquerque Maranhão chamado por mim pelo telefone para conhecer o físico José Walter Bautista Vidal. Conferência na PUC de São Paulo. Bautista Vidal veio de Brasília para me encontrar. Ágape extraordinário. Uma bela noite paulistana regada a vinhos e delírios conceituais em que o velho D’Albuquerque era mestre em sua dicção oral mais que na escrita, acredito eu. Um dos raros intelectuais que sabia da importância de Bautista Vidal antes e depois do Proálcool. Não era um nefelibata que pensava que o mundo se movesse por conceitos abstratos. Nesta noite estava feliz tomando simultaneamente vinho e conhaque. Voraz na bebida que nem Guy Debord.
Convidou-me para dar uma conferência não sei onde no Ibirapuera sobre Paulo Emílio Salles Gomes, Glauber Rocha e Oswald de Andrade. Às tantas vi um senhor com uma mulher e um guri nas primeiras fileiras chorando, comovido com aquilo que eu estava falando. Fiquei encabulado. Que lance era aquele? No final da conferência apresentou-se: - Eu sou Rudá, filho de Oswald de Andrade. Dizendo que eu estava falando coisas incríveis sobre o seu pai. Quase caí para trás, como se diz no interior caipira de São Paulo. Rudá, filho de Oswald de Andrade e de Pagu, o casal revolucionário do modernismo que juntou lirismo com marxismo. Que nome incrível, Rudá, Heitor Villa-Lobos o musicou em uma constelação onde havia o sol (Guaraci) e a lua (Jacy). Rudá é o deus do amor na mitologia tupi-guarani. Ele estava acompanhado de sua mulher, se não me engano estrangeira, e de seu filho estudante de ciências sociais.
Não tive dúvidas: - Maranhão, vamos beber. Vamos comemorar. Vamos brindar esse jubiloso encontro. Telefonei imediatamente para o meu amigo Gino Sarti dono de uma quadra de tênis onde bebemos chopp de graça até o raiar da madrugada.
D’Albuquerque Maranhão era amigo do cinéfilo Rudá, ainda que não fosse chegado a ver filmes. Acho que não tinha paciência para ficar sentado em uma poltrona de cinema, mas foi um notável fuçador de arquivos históricos, fazendo pesquisas muitas vezes encomendadas sobre os mais diversos assuntos. Por imperativo material, tinha que descolar dinheiro para prover sua família com problemas de saúde. Uma filha sua com Cecília havia morrido em acidente de automóvel em Curitiba. Peguei um avião e fui para lá. Tristeza. Para mim ele possuía todo direito de não se levantar da cama, mas, ao invés de deprimido, deu a volta por cima com alegria à Rabelais com seu riso às escâncaras.
Grandão, parecido com Ernest Hemingway, meio gordo, estabanado e sempre às pressas esbarrando nas cadeiras e nas mesas. Gostava de boteco plebeu e bebia segurando tudo em uma só mão, entre os dedos um copo de cachaça, outro de cerveja e um cigarro ao mesmo tempo. Às vezes na conversa seu olhar ficava parado, mostrando-se solidário com o sofrimento do outro, concordando ou não com o que estava rolando exclamava um indefectível: exato! E que conversa, como sabia conversar. Dando a impressão que a verdade não era mais importante que a verossimilhança. O interlocutor tinha a sensação, como eu várias vezes a tive, que ele era um tipo do outro mundo. Não precisava saber a fundo um assunto para deixar a conversa mais rica e interessante.
Boêmio incorrigível a qualquer hora do dia e da noite. Que prazer encontrá-lo na madrugada errática de São Paulo tendo algum troco no bolso. Adorava comer e acabou dando aula de culinária no final da vida como eu o vi num programa de televisão. Outra semelhança sua com Bautista Vidal que misturava mexilhão com pizza e ketchup. Vocação mulherófila mas nenhum traço de donjuanismo predatório. Nunca moça alguma reclamou de seus galanteios.
Soube que aos 70 anos, solteiro, tinha por curtição dançar nas gafieiras de São Paulo, cidade que amava. Não foi um paulista bobão e alheio ao processo de acumulação do café sugando as outras regiões do país. Conhecia muito bem a literatura marxista, leitor de Gunder Frank, que denunciou o desenvolvimento desigual entre as regiões. Gostava de viajar pelos Brasis. Passou dois dias em minha casa em Petrópolis onde lhe apresentei a História da Alimentação no Brasil de Luís da Câmara Cascudo, estudou com entusiasmo o de comer que já era assunto de sua predileção.
Muito aprendi com esse homem. A morte é uma merda!

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