I
No que saiu o melancólico resultado eleitoral (a direita não comemorou, as ruas estavam desertas), tive ganas de criticar a campanha do PT (concordando com Pepe Escobar), centrando minha crítica no discurso, ou seja, na emissão oral e escrita.
II
Desde quando escrevi em 1989, Collor a Cocaína dos Pobres e Brizulla, Leonel Brizola e Luís Inácio Lula: o samba da democracia, abandonei com os meus alfarrábios a ilusão de querer interferir no processo eleitoral. Os candidatos não estavam e não estão a fim de me dar ouvidos. Sublinhei que o estribilho “lula-lá” e “lalalá Brizola” era um decalque da Xuxa, apêndice sonoro da TV Globo, logo, da classe dominante. O desencontro entre forma de direita e conteúdo de esquerda. Isso continua ainda hoje com o PT que não absorveu a semiologia da poesia concreta de São Paulo.
III
Fernando Collor, o caçador de marajá, ganhou a parada. A ditadura de 1964 foi retomada. Com o bolsonarismo redivivo na figura do playboy pop e indolente, viveremos 50 anos nas trevas masoquistas das eleições oligárquicas.
IV
Atrapalha mais do que ajuda a linguagem estatística comedida e acadêmica de professor de sociologia (USP-CEBRAP-WEFFORT) sobre a inclusão dos pobres e fodidos deste país. Trata-se de uma redundância que não mais comove o pauperismo dos eleitores.
V
A palavra “desenvolvimento”, tão cara a Celso Furtado e Florestan Fernandes, não dá voto. Fato é que a gramática do voto conquistado transcende o conteúdo de verdade da mensagem eleitoral. A palavra “fascismo” é outra anfibologia de difícil compreensão para o povo. É que para o eleitor o verdadeiro não é popular. Ninguém nunca ganhou eleição com argumento centrado na verdade da mais-valia.
VI
O povão gosta é de metáfora e não de percentagem. Não importa se a metáfora seja tecida com a contribuição milionária de todos os erros gramaticais. Jesus Cristo não sabia o que era adjunto adnominal.
VII
É incompreensível para os botequins do Capão Redondo a antinomia de Harvard entre a democracia e a barbárie. Um chofer de táxi em Copacabana me perguntou o que é privatização. Eu respondi-lhe que é a mamadeira de piroca. Ele entendeu numa buena.
VIII
A maior cilada ecumênica é querer ser amado por todos os hijos de puta em uma sociedade de classes fundada no salário e no lucro. Melhor é seguir o conselho de Virgulino Lampião em Pernambuco: quem pedir perdão eu mato.
IX
A direita jurídico-midiática multinacional assassinou a ex-mulher e o neto de Lula. O povo precisa ouvir essa crueldade infinitas vezes para despertar a Pietà contra o verdugo bolsonarista Sergio Moro.
X
Não olvidar o caudilho Leonel Brizola: o imperialismo é implacável. A extrema direita popular made in USA é o dólar da urna eletrônica turbinada pela Inteligência artificial.
XI
A inteligência artificial, o mais recente instrumento da direita internacional, andou aprontando o diabo nestas eleições. Não só com o algoritmo miliciano, como também pela manipulação da subjetividade do eleitor, que recebe involuntariamente em seu celular uma quantidade infinita de cibermentiras. Vide o exemplo do argentino Cerimedo, amiguinho da Bolsonaro Family, que está em cana na Bolívia por mandar matar a mulher e por atentar à democracia em vários países latino-americanos, inclusive no ataque ao Palácio da Alvorada.
XII
Os milhões de dólares despejados na campanha do filhinho do papai Bolsonaro foram avassaladores, embora seja difícil de localizar a sua visibilidade. O cidadão digital não tem pátria. A inteligência artificial nas mãos dos gângsters é uma forma de comer o futuro.
XIII
Meu amigo matemático Sylvio Massa está preocupado com a inércia do governo Lula em escancarar as falcatruas armazenadas nas databases bolsonaras. A informática é dominação, assim como o golpe é de direita e não de esquerda.
XIV
Lula foi moído pelo capital internacional da inteligência artificial. O dinheiro das bets foi direto para os bolsillos do bolsonarismo. Eu já ouvi de um popular emprenhado pela mensagem Cerimedo que Lula estava a fim de acabar com os jogos de futebol porque ele havia interditado as bets. Estas na verdade deveriam ser abolidas depois das eleições, e não antes.
XV
Karl Marx não tolerava a existência de loteria.
XVI
A aposta consubstanciada no truque das bets é contra a democracia assim como a pesquisa de intenção de voto. O discurso argumentativo só vale para a discussão interna do partido, pois a sociedade do espetáculo reduz a linguagem à data e à informação.
XVII
A matemática não é inocente. Os bilionários raitequi estão de olho nos minérios nobres da América Latina. O trabalhador deve estar sob controle. A robótica bolsonara fraudou as eleições para defender os interesses da burguesia imperialista. Essa nuvem fraudulenta do mal tem que ser traduzida pela campanha do Lula de maneira iracunda.
XVIII
O desafio que Lula tem de enfrentar é apresentar-se ao mesmo tempo como um veterano lutador na luta de classes e despertar a piedade catártica e cristã nos pacatos eleitores.



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