quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Eleição psicótica: o bolsonarismo é a farsa no céu de Crivela e Edir Macedo



Signo de mutação psicocultural no Rio de Janeiro foi a vitória de Crivela. O que rola é peleja ou conchavo entre Globo e Record? Disputa pela audiência. Burguesias comerciais, rentistas, proprietárias dos meios de comunicação, enfim, burguesias improdutivas. Prematuro é anunciar o réquiem à TV Globo, embora esta não possua adeptos e fiéis, apenas espectadores que são voláteis, e não beatos.

O bishop Crivela não reza para a rede Globo. Esta tem sua sede no Rio de Janeiro, Record em São Paulo. Não se trata do entrevero que houve entre Globo e Leonel Brizola. Reinava em Brasília José Sarney, muy amigo do doutor Roberto Marinho.

 O PSOL carioca não é um partido com perfil anti-TV. Para essa patota pós-moderna a mídia é politicamente neutra e, a depender das circunstâncias, a TV dominante pode empurrar as causas progressistas.

A tácita concordância com o poder midiático converte a atitude do PSOL quanto ao gênero sexual em uma atitude abstrata ao negligenciar a luta de classes. Afinal, as relações de gênero estão imbricadas no processo de acumulação de capital e de super exploração da força de trabalho.

A mulher integra a classe trabalhadora, muitas vezes trabalhadora não paga. A mulher faz parte da economia informal e do exército industrial de reserva. O feminismo marxista tem de atentar para a manipulação pornô e cosmética, e para o motivo pelo qual a mulher pobre ou pequena burguesa é seduzida pelas mensagens evangélicas, que vota em Jair Bolsonaro. Menos deplorável não é o sexismo dos programas televisivos embalados com música popular pop.

Já foi dito que o verdadeiro desejo dos candidatos do PSOL é cantar e saracotear no Canecão, e não tomar o poder. Convém não deslembrar que o PT, do qual descende o PSOL, teve a Rede Globo como companheira de viagem contra Leonel Brizola. O PSOL poderá palmilhar o mesmo caminho mazoca e suicida se ficar compadre da Rede Globo contra os evangélicos.

Dizia Frederico Engels que na família o homem era o burguês; a mulher, proleta. A criança, o pai do homem, não comove a programática do PSOL; de resto, também não concerne aos pastores porque a criança não tem grana para cacifar o dízimo.

A igreja não é menos patriarcal que a TV capitalista. Descontado o charlatanismo de Bolsonaro, que se vale astuciosamente do gay para fins eleitorais, o ódio reacionário ao homossexual é um fenômeno interclassista.

O corpo homossexual não é uma entidade acima da contradição entre capital e trabalho.
Com passeata gay e TV Big Brother o amor homossexual não é mais o amor escandaloso contra a lei. A sexofobia evangélica é de araque, pois nada impede que no poder seja ativado um Cristo traveco.
A católica rede Globo não é sexófoba, mas nem por isso deixa de ser de direita. A burguesia é misógina, a mulher é considerada cidadã inferior.

No supermercado o grã-fino tucano passa o cartão para a moça no caixa e não está nem aí se ela está fazendo o trabalho de dois trabalhadores. A solução dos problemas sociais está na reza que faz chover dinheiro, alardeiam os pastores ruidosos com boca de motoca.

Em 1974 Pasolini viu a decadência da caridade. A melhor coisa dos católicos não é a fé nem a esperança, todavia a caridade virou pragmática e cínica. A Igreja não foi fundada por São Pedro bonachão, e sim pelo malandro São Paulo.

Edir Macedo, proprietário e teólogo da mercadoria das almas, colocou o seu sobrinho Crivela na prefeitura do Rio de Janeiro, plenamente convencido que possui a sabedoria de Salomão e a arma sionista.

No templo de Salomão, o mini Vaticano em São Paulo, desenha-se o projeto do príncipe capitão em Brasília. Surgidos depois de 1964, os discípulos de Edir Macedo não se preocupam em combater o socialismo e o marxismo, mas em cultuar e propagar a imagem do inferno. O céu é plutocrata.

Revejam o nexo entre Cristo e moeda, o intercâmbio Deus-Jesus-Santo-Sacerdote-Televisão. A sacola evangélica forrada de dinheiro é a mesma da equivalência liberal empreendedora: um belo dia os operários serão capitalistas. Todos temos o direito de nos hospedar no Hilton Hotel. A cabeça beata deseja a punição bolsonara.

Há que punir os pobres, que não é senão o reverso de “cuidar das pessoas”, o mote filantrópico do pastor Crivela. As igrejas (todas as igrejas) não distinguem quem vive de lucro e quem vive de salário. O salário é limitado, não o lucro. Pastor piedoso é oximoro porque o pobre vive para gerar o rico.

Os princípios sociais do cristianismo justificaram a escravidão antiga, glorificaram a servidão medieval, assim como defendem a opressão do proletariado. Os ágapes ensurdecedores dos evangélicos são capitalistas. O lema do rentismo é lucrar sem produzir.

Há pastores por ai vendendo lotes no céu a prestação. É inconcebível religião anticapitalista. Inimaginável um evangélico transido de fé que seja de esquerda e humanista. Se pudesse o teólogo Lutero teria capado Epicuro, o filósofo grego do conceito para quem o mundo era seu amigo.



terça-feira, 2 de outubro de 2018

O pesadelo Bolsonaro e o ódio ao seio da Mãe Gentil



O professor Nildo Ouriques ousou ao escrever um artigo intitulado Reflexão sobre a Ameaça Fascista: O Segredo de Bolsonaro. Nele bagunçou o senso comum acadêmico que, sem entender o conceito de fascismo, acaba usando-o a torto e a direito. Ainda que não tivesse escarafunchado em que consiste o enigma irracionalista desse personagem tosco, medíocre, desprovido de carisma e charme, que atingiu espantosa notoriedade nos últimos seis meses. Parece um produto fugaz da mídia, uma canção do Teló de efeito efêmero, todavia é uma opção de poder que envolve o povo e o país.

O professor adverte: não exagerem a ameaça do fascismo na sociedade brasileira. Talvez o tema de maior complexidade social e política no século XX tenha sido o fascismo, junto com o stalinismo que, embora não sejam simétricos, mantêm entre si determinadas correspondências, conforme mostrou em suas análises pioneiras o bolchevique Leon Trotsky.

Nildo Ouriques brinca dizendo que não é toda segunda-feira que temos fascismo. Cuidado com as palavras. Qualificar de fascista qualquer coisa é perigoso e não esclarece a realidade. Grossura, arbitrariedade, atentado à liberdade, censura, violência - isso por si mesmo não caracteriza o fenômeno do fascismo.

A boçalidade sub-cultural da sociedade de massa no capitalismo videofinanceiro abriga com certeza determinados traços fascistóides. Todavia, do ponto de vista político, para existir fascismo é preciso que haja uma ofensiva da classe operária organizada tendo por horizonte a revolução socialista. Trotsky dizia que o fascismo tinha por objetivo destruir as organizações operárias. A vitória de Hitler foi preparada pela política stalinista do Kremlin, ainda que não se deva confundir fascismo com stalinismo.

O contrário do fascismo não é o socialismo, pois o primeiro é o oposto à democracia liberal burguesa, ou seja, o fascismo é a supressão das liberdades burguesas. O fascismo é uma arma que a burguesia pode lançar mão para erradicar os valores da democracia liberal. Isso é o fascismo clássico que medrou na Alemanha e na Itália durante a década de 30. Os países fascistas, Alemanha e Itália, como reparou Trotsky, eram sequiosos de colônias no Terceiro Mundo. Daí o seu expansionismo, ao contrário do imperialismo democrático da Inglaterra e França, que não foram expansionistas porque tinham colônias.

A reflexão de Trotsky foi retomada na década de 40 por Ernest Mandel na Bélgica e Jorge Abelardo Ramos na Argentina e, recentemente, por Samir Amin e John Bellamy Foster. Não se esqueçam do livro Fascismo ou Socialismo de Theotônio dos Santos na década de 70, quando o continente latino-americano estava sob uma ditadura milico-civil-multinacional.

A análise clássica de Trotsky foi feita em Prinkipo, Turquia, quando de seu exílio da União Soviética, distante do palco dos acontecimentos fascistas na Europa, como assinalou Ernest Mandel para realçar o seguinte aspecto: para existir fascismo é preciso que haja uma pequena burguesia enlouquecida. É célebre a frase de Trotsky, mais ou menos assim, nem todo pequeno burguês se transforma em Hitler, mas há um Hitler em todo pequeno burguês enlouquecido. O temor do pequeno burguês em época de crise econômica se traduz no pânico de se ver rebaixado à condição operária ou sub-proletária. Não vamos abusar da analogia, mas já se observou que a lulofobia decorre do fato da classe média não ter sido alavancada pelos governos petistas durante 2005 e 2012.

Há que realçar que o fascismo serve aos interesses da burguesia financeira e não aos da pequena burguesia. Não resolve grande coisa apelar para a palavra “autoritarismo”, que foi usada de maneira astuciosa pelos sociólogos tucanos para ocultarem os interesses econômicos e de classe. O tucanismo supostamente democrático entrou no enredo de acionar “o golpe legal” contra Dilma Rousseff a partir da contestação arbitrária do resultado eleitoral empreendida pelo senhor Aécio Neves, o ponto inicial da chanchada sinistra de Jair Bolsonaro.

A ponte Michel Temer foi construída para privatizar a Petrobras e a geral, preparando o retorno dos tucanos ao poder, seja um Alckmin ou um Dória. A Lava-Jato de Harvard teria de colocar Lula no xilindró para ser esquecido e morto politicamente com o auxílio da Rede Globo e TV Bandeirante. A lente de aumento incidindo na corrupção do governo petista tinha por objetivo impulsionar as manifestações da classe média nas ruas.

O problema é que nessa orquestração, que inclui a demonização da Venezuela e do bolivarianismo de Chávez e Maduro, surgiu o personagem Bolsonaro que não estava nos cálculos e previsões do tucanato. Isso não quer dizer que haja incompatibilidade substancial entre este e aquele. Na verdade há em cada tucano um Bolsonaro latente, mas este personagem não estava na prateleira do PSDB. Ele surgiu de maneira súbita e inesperada, quase como um raio em um céu azul, e está sendo agora um candidato da classe dominante, referendado pela burguesia bandeirante, o latifúndio, os setores financeiros internacionais e os proprietários dos meios de comunicação de massa, sem deixar de mencionar o patriciado jurídico e os altos escalões da igreja. O economista de Jair Bolsonaro é um cidadão badameco chamado Paulo Guedes, um Chicago boy que fez a cabeça genocida no Chile contra Salvador Allende, uma reduplicação intelectualmente piorada do entreguista Roberto Campos.

Recordo-me do cineasta Pier Paolo Pasolini que desde 1942 refletiu sobre o fascismo na Itália de Mussolini, a mistura de maldade com estupidez para salvar o capitalismo. Distinguiu o fascismo psicológico do fascismo histórico. Opressão dos ricos. O fascismo encarado como uma reserva mental da burguesia italiana. Ele sempre se valeu da palavra cléricofascista, a aliança do Estado com a Igreja.
A raiva analítica, como Pasolini dizia, semelhante à atitude incisiva e peremptória de Nildo Ouriques avessa ao bom mocismo dos candidatos de esquerda, deve ser usada para diagnosticar e se opor à barbárie na sociedade brasileira. Ainda que Bolsonaro não venha a ser Presidente da República, o fato de ter ele alcançado tamanha nomeada já é sinal de uma patologia social e cultural coletiva.

Haja capitalismo invariavelmente haverá o germe do fascismo. A interação contraditória entre democracia liberal e fascismo não deve supor que este será suprimido definitivamente pelos democratas liberais. Somente o socialismo pode eliminar de vez o perigo do fascismo.

Há cor local diferente no fascismo conforme sua latitude. Na Itália deu força para o legislativo em detrimento do judiciário, mas em outros contextos pode acontecer o contrário, por exemplo: por que entre nós não poderá acontecer uma hipertrofia do judiciário?

Como já foi mencionado, o impiti, o Lava-Jato, a panelada na rua, a infernalização da Venezuela - tudo isso sem dúvida gerou a cruzada boçal de Bolsonaro. A prisão do Lula tinha por escopo matar o PT, porém isso não aconteceu. O afável tratamento do judiciário dado aos demais políticos processados ensejou a martirização do líder metalúrgico que indicou o seu candidato para substituí-lo. Parece ter dado certo a fusão de Lula com Haddad, de modo que a ciência política da Rede Globo foi por água abaixo. Isso se percebe no desespero de seus jornalistas jabaculizados entrevistando com pedras na mão Fernando Haddad. O close televisivo no triplex Guarujá, por mais que tivesse sido repetido milhares de vezes, não surtiu efeito.

Há que realçar, não obstante as qualidades intelectuais de Fernando Haddad, que não há abismo entre ele e a burguesia culta do tucanato. Infortúnio histórico seria o PT chegar de novo ao poder e passar a mão na cabeça dos inimigos do povo brasileiro, como fizeram Lula e Dilma. O PT fofinho. O PT comovido com a Avenida Paulista e a favela do Capão. O PT que acredita ter superado a contradição entre capitalista e trabalhador assalariado. A tarefa histórica a que foi incumbido Fernando Haddad é de cortar o câncer Bolsonaro.

Trotsky comparou a liderança fascista ao gangster Al Capone. Tal qual Bolsonaro, Mussolini e Hitler ganharam fama sem terem feito nada de extraordinário. Hitler exibia traços de monomania e de messianismo, “ideologia epiléptica”, enquanto Mussolini era uma fanfarronada cínica e egoísta. Como explicar o êxito dessas duas figuras? Esse é um assunto sempre recorrente na teoria política do século XX.

Eu não estou convencido que a epilepsia gestual do Hitler possa ser aplicada à performance falsária de Bolsonaro porque este, pusilânime e hedonista, carece da energia necessária de líder fascista. Dificilmente ele terá a audácia da atitude ascético-sacrificial da personalidade básica do fascismo. 
Pasolini em seu livro Empirismo Herético sublinhou que a sociedade interclassista de massa permite juntar o manager com o proleta. Não se admire que Jair Bolsonaro seja curtido como herói em Wall Street e na Ilha da Maré. Nem chorar nem rir, aconselhava Karl Marx citando Baruch Espinoza, mas compreender. A ofensiva reacionária é mundial. Já foi dito que o ocaso do capitalismo vai ser mais doloroso do que foi o seu início.

O pai do Trump era da Ku Klux Klan. O guri foi mimado vendo o linchamento de negros. O seu guru é o Henry Kissinger que bombardeou o Camboja e sabotou o Pró-Álcool de J. W. Bautista Vidal. O João Dória é o Trumpinho paulista querendo imitar o Trampão. Foi o prefeito “CEO”. O bilionarismo é um tesão cultuado em São Paulo. O povo precisa ser governado por gente nababo. A plutocracia exibicionista. Isso começou com a coluna Joyce Pascowitch no jornal A Folha de São Paulo. Exiba o seu carrão e o seu jatinho. Não esconda o seu consumo conspícuo. Essa burguesia exibicionista não terá nenhum prurido de escancarar o seu papel na derrubada de João Goulart. Viva o golpe de 64. É isso o que se ouve nos salões da Fiesp. Essa é a palavra de ordem da burguesia bandeirante que se espraiou pela Rede Globo e pelos cursos de pós-graduação nas universidades.

Não seria descabido afirmar que foi dessa superestrutura política que surgiu o caubói Bolsonaro, mas não podemos nos ater a essa esfera da realidade para explicá-lo. Temos que investigar à Wilhelm Reich e com a psicologia de massa da personalidade autoritária estudada por Theodor Adorno. Bolsonaro deve ser explicado do ponto de vista psicológico com o seu caráter sádico-anal. A misoginia coloca em primeiro plano a obsessão neurótica com o encontro exclusivo do pênis / ânus e o sequestro do órgão sexual feminino.

Atreveria dizer que o Bolsonaro expressa um sentimento terrível que está se configurando na sociedade brasileira: o repúdio do homem brasileiro ao seio da mãe. E mais: a raiva contra a mãe que reverbera na raiva contra a mulher em geral. Isso é um escândalo porque até agora a mãe segurou a sobrevivência da família do brasileiro pobre, e não apenas com o leite de seu seio. É preciso fazer uma análise da caracterologia neurótica de Bolsonaro como um epifenômeno sócio-cultural da situação existencial do homem brasileiro. A recusa do seio da mãe não está desconectada do hábito da Coca-Cola, da macdonização do paladar e do adubo cancerígeno da Monsanto.

Bolsonaro não deixa de ser um fenômeno culinário, um acontecimento gástrico. Não estou aqui a fim de psicologizar esse desastre civilizacional. O problema não está em Bolsonaro, e sim nas coisas que geraram esse tipo de personagem. A sociedade brasileira está doente, cada vez mais miserável e assolada por um rentismo que corrói o corpo e a alma. Bolsonaro começa por um bonapartismo de baixo nível e já tem apoio da alta burguesia paulista e dos estamentos multinacionais. Não é a toa que os jornalistas venais estão botando Bolsonaro no colo, chamando-o de queridinho e de homem providencial.

O rentismo está consubstanciado na finança de Edir Macedo que o apóia por ser antiecológico. Alérgico à natureza, o pastor gosta é de dólar. Edir Macedo é o nosso Murdoch, que atua afinado com Medina, o empresário que trouxe a Aids para o Brasil com o Rock in Rio. Isso revela que Bolsonaro tem o seu lado pop. O empresário de marketing e publicidade, Medina, cuida da campanha de Bolsonaro, e Medina é comensal da Rede Globo, então conclui-se que não há antítese entre Edir Macedo, o proprietário da Record, e a Marinho family; o que existe é uma espécie de ultraimperialismo midiático, ou seja, a fusão de rentistas na classe dominante.

Edir Macedo gosta de sublinhar o caráter sanguinário e bélico da Bíblia. Jair & Edir seria a chapa evangelical gun ideal, e não um general de vice que pinta o cabelo. A filantropia de Rockfeller queria a matança de todos os pobres. Os pobres são responsáveis pela pobreza. Bolsonaro é aliança gospel videofinanceira armada com os brinquedinhos de Israel. Quanto mais miséria, mais igrejas. A expansão evangélica corresponde ao caráter rentista e especulativo do capitalismo monopolista. Todo fundador de Igreja, seja qual for, revive o São Paulo gestor, burocrata e empreendedor.

E no embate Bolsonaro versus Haddad a Igreja católica vai tirar férias?

Em 1968 Gustavo Gutiérrez escreveu a Teologia da Libertação que teve enorme repercussão nos meios católicos da América Latina. Em Roma o Vaticano não gostou da “opção pelos pobres” denunciando a desigualdade social.

Há quem diga que o papa Francisco esteja retomando a teologia da libertação para enfrentar a ascensão evangélico-protestante no continente latino-americano, cuja expressão máxima é o Bishop Macedo, o rival, o adversário, o concorrente da igreja católica.

O Vaticano sabe que Edir Macedo não é Lutero, mas preocupa-se com a sua audiência, que no fundo é política. Edir não se apresenta como protetor dos despossuídos. Não é o Messias que vai nos livrar de todos os males. No país da conciliação de contrários poderá haver uma “entende cordiale” de católicos e evangélicos, Edir, Globo e Record.

A disputa Bolsonaro Haddad traz o fantasma de Edir Macedo como o Czar que poderia unir todas as facções evangélicas. O Templo de Salomão é uma escada kitsch para alcançar o Palácio da Alvorada com Jair Bolsonaro. A diferença é que Edir Macedo é pós-moderno, não se preocupa com os comunistas nem com o materialismo histórico. Isso não atrai o povo de Deus. O papa Francisco sabe que o catolicismo poderá não sobreviver na América Latina se a Igreja abandonar o pobre, deixando-o votar em Jair Bolsonaro.


terça-feira, 21 de agosto de 2018

Discussão sobre o filme 'Socialismo limpo, capitalismo sujeira"

Discussão do filme "Socialismo limpo, capitalismo sujeira", de Gilberto Felisberto Vasconcellos, sobre o cientista brasileiro Bautista Vidal. O filme foi lançado nas Jornadas Bolivarianas  - XIV Edição - em maio de 2018.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

A contrarrevoluçãopopposmoderna contra o marxismo

A contrarrevoluçãopopposmoderna contra o marxismo - Conferência de Gilberto Felisberto Vasconcellos (UFJF) nas Jornadas Bolivarianas - 14ª Edição. Em 08 de maio de 2018.


terça-feira, 3 de julho de 2018

Ludovico Silva por Gilberto Vasconcellos

Gilberto Felisberto Vasconcellos fala sobre o filósofo e intelectual venezuelano Ludovico Silva. O programa, que visa levar conhecimento sobre os pensadores da pátria grande, é uma produção do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC.


sábado, 19 de maio de 2018

Gilberto e a Indústria Cultural


Participação de Gilberto Felisberto Vasconcellos no programa Pensamento Crítico, do Instituto de Estudos Latino-Americanos. Com Nildo Ouriques e Elaine Tavares.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Filha de Bautista Vidal escreve a Gilberto



Sou Alyne Bautista, filha de Bautista Vidal

"Gilberto, acabo de ver o filme que você fez, amei. Você captou a alma, o jeito, a ideia. Com simplicidade e pujança. Com sentimento, com simbolismo e significado. Os conceitos aí expressos nos dão a dimensão da nossa função mundial como produtores possíveis de energia limpa.

Somente essa região do planeta (região entre os trópicos de câncer e capricórnio) tem incidência solar durante todo o ano. As demais regiões não têm essa possibilidade em razão de sua localização com climas temperados e frios.

As soluções energéticas mundiais contemplam tecnologias adequadas aos climas deles. Porém essas soluções são altamente poluentes e até suicidas. Derramamentos de petróleo, acidentes com usinas nucleares, intoxicação pela queima do carvão mineral.... Esses tipos de energia deveriam ser banidas do planeta Terra e substituídas pela energia produzida pelas plantas.

O uso inteligente da terra, do homem e da natureza podem construir um outro tipo de civilização.
A energia do petróleo, nuclear, do carvão vegetal além de destrutivas são concentradoras de renda.
A biomassa pode ser produzida junto com alimentos no meio da floresta, em pequenas propriedades com milhares de famílias. Gera trabalho, renda, traz de volta as pessoas ao campo.

É uma civilização assim que devemos buscar como seres conscientes que somos.

É uma mudança conceitual e cultural o que precisamos. E isso só será possível com essa paixão que envolve e contagia.

Precisamos nos envolver dessas idéias, ideias de prosperidade, de solidariedade, de valorização da vida, do sol, da natureza e do homem.

Abaixo a sujeira do capitalismo.

Vamos levar essas idéias aos quatro cantos do mundo.

Um abraço carinhoso

Socialismo limpo, capitalismo sujeira




A tarde do terceiro dia de Jornadas Bolivarianas, do IELA, foi a hora de reverenciar um velho companheiro, um valoroso parceiro na luta por um mundo melhor: Bautista Vidal. Cientista brasileiro, baiano de nascimento, engenheiro e físico de profissão que, com Urbano Ernesto Stumpf, idealizou o motor a álcool, uma importante inovação na área da energia, que só existe no Brasil.

Bautista, talvez a mais importante figura brasileira no campo da energia, responsável pela implantação de 30 instituições de pesquisas e centros tecnológicos, no Brasil.

O trabalho que desenvolveu nos últimos anos de vida foi o de andar pela América Latina, tentando convencer os governos ditos progressistas que assomavam, a investir em mais uma de suas ideias geniais: a biomassa. Ele entendia que o Brasil, em particular, e os trópicos em geral, tinham a maior fonte de energia limpa e inesgotável, capaz de fazer funcionar o mundo. Essa energia é o sol, que interagindo com a água e a floresta gera a biomassa. Bautista falou com Lula, falou com Chávez, falou com Fidel, mas sua proposta não encontrou eco. Morreu em junho de 2013, sem ver seu sonho realizado.

Bautista era ele mesmo uma espécie de sol. Iluminava tudo à sua volta com uma energia inesgotável. Falar do Brasil, de soberania e de energia era seu negócio. E era só começar a falar que já se inflamava, rosto em fogo, dedo em riste. Um Brasil independente vivia na sua cabeça e no seu coração. Esperava por isso, queria isso. Não viu.

Seu parceiro de sonhos e realidades foi o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos, com quem, inclusive, escreveu alguns livros falando da maravilha dos trópicos e as possibilidades da biomassa. E foi Gilberto quem tirou das brumas do esquecimento as ideias de Bautista Vidal agora nesse 2018. O filme “Socialismo limpo, capitalismo sujeira” joga para a tela grande a utopia – possível e necessária – de Bautista Vidal.

E em pouco menos de uma hora a gente volta a ouvir a voz retumbate e a ver o rosto abrasado de amor e de esperança, típicos de Bautista. E a gente se emociona, e a gente se enraivece. Porque a gente sabe que as ideias dele não eram sonhos ao vento, mas possibilidades concretas delineadas a partir da ciência dura. O sol. O sol. O sol. O sol/cialismo. A energia fluindo e inundando o Brasil e o mundo, sem sujeira, sem morte, sem guerra.

O filme de Gilberto Felisberto Vasconcellos está aí, para ser visto, re/visto, debatido, discutido. Na sua estética peculiar, na simplicidade, na fortaleza, na potência do discurso. Biomassa. Energia limpa. Brasil soberano. É mais do que uma homenagem ao velho cientista, é um brado de esperança.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Bom dia, Gondin da Fonseca



Texto publicado na Revista Brasileira de Estudos Latino-Americanos

Amalucado bom dia no título deste artigo porque não está mais vivo aí o homem, no entanto cumprimento-o para saudar o grande escritor que foi malocado pela cultura chapa branca e vende-pátria. A começar das letras, das Faculdades de Letras chegadas a um intercâmbio free shop com as últimas novidades estrangeiras, muitas vezes comendo gato por lebre. Nenhum crítico literário universitário dedicou-lhe a mínima atenção. Outras estrelas menores foram badaladas e canonizadas. Seu estilo parece o que há de melhor em Oswald de Andrade, de quem foi amigo, o “bambino” Oswald que um dia no Rio de Janeiro com Gondin marcou um inusitado almoço contra. Almoço contra? Oswald respondeu: sim, almoço a favor tem demais.

Monteiro Lobato reconheceu que depois do livro sobre Santos Dumont o mundo ficou  sabendo que não foi o avião inventado pelos irmãos Wright. A metrópole costuma apropriar-se da história da colônia. Ainda bem que este livro existe. Santos Dumont, o primeiro a usar petróleo no espaço. Note-se que Gondin da Fonseca, amigo de João Pires do Rio, foi um intelectual antenado na questão energética, o que é raríssimo num país onde a intelectualidade está viciada na superestrutura. Não por acaso escreveu Que sabe você sobre Petróleo? Obra prima no século XX de metodologia anti-imperialista. Livro que deveria ser reeditado para reproduzir o sucesso e audiência pública que teve ao ser lançado. Linguagem coloquial, direta, apodítica, enxuta, irônica, polêmica, irada, panfletária, sem papas e batatas na língua.

Escrevia o que pensava e pensava com clareza.

Polígrafo mineiro, nascido em Matias Barbosa, autor de Angu, Feijão e Couve, Eduardo Frieiro dizia-o escritor clássico da língua portuguesa. Nunca deparei com o nome de Gondin da Fonseca em nenhuma história da literatura. Ele não era alérgico a São Paulo, adorava Ribeirão Preto, “a mãe-adotiva de Santos Dumont”, tinha enorme admiração pelo prefeito Prestes Maia, de que José Pires do Rio foi engenheiro e assessor.

José Pires do Rio pensou no papel do combustível na economia mundial em 1916, no mesmo ano em que Lenin conceituava o imperialismo a última etapa do capitalismo, que nasce movido pelo combustível fóssil na sua fase monopolista. Cotejo-o com Lenin porque, entre outras coisas, eu já li por aí apressado escriba a dizer que Gondin da Fonseca era antimarxista. Não é verdade. Ele era, sim, anti-stalinista; na década de 30 esteve na União Soviética e não foi lá muito bem recebido. Leu Marx, Lenin e Trotsky em uma cultura onde jejuamos marxismo.

Gondin da Fonseca não se comprazia em escrever para outros escritores. Não era cioso de sua especialidade e voltado exclusivamente para especialistas. Seu livro sobre petróleo teve milhões de exemplares. Anti-imperialista radical, difícil de ser encontrado entre autores marxistas no Brasil. Nisso é parecido com Leonel Brizola que não se nomeava marxista, mas era visceralmente anti-imperialista. Gondin da Fonseca elogiou várias vezes Getúlio Vargas,  não sei se esteve com ele no Catete. Sentou o sarrafo no entreguismo de JK, votou no Marechal Lott, denunciou as gorjetas da Standard Oil de Rockefeller, “o prêmio Nobel do banditismo”. Esse empresário gangster molhou as mãos de Carlos Lacerda, Amaral Peixoto, Julio Mesquita, Magalhães Pinto, Odílio Diniz e Cardeal Jaime Câmera. Curiosamente quase todos que tiveram as mãos molhadas por Rockefeller participaram do golpe de 64, para não dizer da derrubada de Getúlio Vargas em 1945 e 1954. Surpreendo-me até hoje que Gondin da Fonseca não tivesse sido assassinado por sua coragem cívica revolucionária.

Meu saudoso amigo, o cinematógrafo Elyseu Visconti, filho do pintor Cavalleiro, ilustrador de seus livros, autor de desenhos sobre Gilka Machado, deu-me de regalo a plaquete Arame Farpado.

Num país que adora biografia, Gondin da Fonseca foi sem dúvida o maior biógrafo. Cada biografia escrita com abordagem específica em função da vida do biografado. Eça de Queiroz, José Bonifácio, Camilo Castelo Branco, Santos Dumont, Machado de Assis e Camões. Traduziu o poeta Edgar Allan Poe.

Em seu livro magnífico sobre Camilo Castelo Branco, que não tem similar em Portugal, encontra-se de maneira pioneira a psicanálise freudiana aplicada à literatura. Aprendeu esse método com sua mulher Lourdes Leduc que escreveu sobre a psicologia do escritor Camilo Castelo Branco, considerado por Gondin o melhor escritor da língua portuguesa, o que não me parece exagero algum. Os psicanalistas brasileiros não conhecem Gondin da Fonseca nem sua mulher que leu a psicanálise em profundidade. Durante a moda do estruturalismo nenhum lacaniano por aqui disse nada a respeito. O prefácio do livro de Gondin sobre Camilo é de Lourdes Leduc, prefácio genial que revela à luz da psicanálise o drama de Camilo Castelo Branco.

Escândalo na sociologia é ele não ser lido. Claro que devemos creditar isso à ignorância, à desinformação típica do subdesenvolvimento. Reparem que Gondin da Fonseca refletiu sobre a questão agrária em seu livro Fala Julião, assim como tematizou o stalinismo em seu livro Bolchevismo escrito em 1935. Não sei de outro autor que tivesse morado uns tempos na União Soviética antes dele. Jornalismo de alto nível mostrando o cotidiano russo sob o regime de Stalin. Depois escreveu sobre Mao Tse Tung e a guerrilha nascida em Guararapes. Gondin da Fonseca não se dizia marxista, e sim espírita e crente em Deus.

Atenção: o rótulo abstrato da democracia não o seduziu. Não foi entusiasta do capitalismo e do liberalismo fundado no lucro. Definiu os EUA como um “acampamento dirigido por gangsters”. Sabia do que estava falando, tal qual San Martín que conheceu o monstro por dentro. Gondim da Fonseca morou nos Estados Unidos e trabalhou no banco  Morgan, viu de perto o mecanismo sórdido econômico das perdas internacionais que sacrificam o povo latino-americano.

Referências

FONSECA, Gondin. Bolchevismo. José Olympio; São Paulo, 1935.
FONSECA, Gondin. Camilo compreendido. Martins Fontes; Rio de Janeiro, 1954.
FONSECA, Gondin. Que sabe você sobre petróleo? São José; Rio de Janeiro, 1955.
FONSECA, Gondin. Arame farpado. Coelho Branco; Rio de Janeiro, 1955.
FONSECA, Gondin. Santos Dummont. São José; Rio de Janeiro, 1956.
FONSECA, Gondin. Camões e Miraguarda. Fulgor; São Paulo, 1961.
FONSECA, Gondin. Machado de Assis e o hipopótamo. Fulgor; São Paulo, 1961.
FONSECA, Gondin. Assim falou Julião. Fulgor; São Paulo, 1962.
FONSECA, Gondin. Afonso de Albuquerque e Mao Tsé Tung. Fulgor; São Paulo, 1963.
FONSECA, Gondin. A revolução Francesa e a vida de José Bonifácio. São José; Rio de
Janeiro, 1971.
FONSECA, Gondin. A tragédia de Eça de Queiroz. São José; Rio de Janeiro, 1972.
FONSECA, Gondin. Camões e os Lusíadas. São José, Rio de Janeiro, 1973.
FRIEIRO, Eduardo. Angu, Feijão e Couve. Itatiaia; Belo Horizonte, 1966.
VLADIMIR, Lenin. Imperialismo, etapa superior do capitalismo. Global; São Paulo, 1979

sábado, 14 de outubro de 2017

O cineasta Glauber Rocha e a América Latina



Este artigo aborda o cinema de Glauber Rocha a partir da noção de Terceiro Mundo, que implica a discussão sobre o nacionalismo e o anti-imperialismo. Ele foi o cineasta brasileiro que se diasporizou pela América latina e entrou em contato com vários intelectuais de expressão. O Cinema Novo não deixou de denunciar, sobretudo na ensaística glauberiana, a balcanização em que se encontram os países latino-americanos, os quais são vítimas ideológicas do imperialismo audiovisual dominante e suas ramificações no gênero telenovela. A polaridade metrópole-colônia atravessa a filmografia de Glauber Rocha.

A colonização econômica é o que determina a alienação cultural na América Latina. O cineasta viveu a contrarrevolução de 1964, da qual sobreveio o subimperialismo na América Latina, tendo o Brasil papel essencial na deflagração dessa política que não deixa de revigorar a mentalidade colonial que perpetua o desenvolvimento do subdesenvolvimento.

Texto publicado na Revista Estudos Ibero-Americanos

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