domingo, 15 de março de 2020

A revolução brasileira tematizada por Nildo Ouriques: ou massa ou classe social ou ambas?



Da teoria da dependência a mais importante lição é que a estrutura de classes do país mantém conexão com as condições histórico-mundiais, e que portanto é o geral que prevalece sobre o particular.

O regime político de 64 até hoje não alterou o modelo econômico for export. Tudo ou quase tudo para fora.

O conflito burguês interclassista (burguesia local contra burguesia estrangeira) quase inexiste. O capital estrangeiro sempre se dá bem. Nossa integração subalterna ao sistema econômico mundial é sagrada. Todos estão de acordo, Frias, Mesquita, Saad, Macedo, Civita, Marinho.

Somos todos Chicago boys.

A revolução socialista deve ser concebida através da contradição entre a força de trabalho e a concentração de capital nacional e estrangeiro. Como mobilizar essa força de trabalho contra os seus inimigos de classe? Que classe social terá condições de nacionalizar o país e com isso trazer o bem-estar para o povo? A Reforma do despachante Paulo Guedes é o adeus definitivo ao bem-estar social.
A visão tecnocrática da burguesia é que todos os problemas se resolvem pela ciência e pela técnica.

Diante do pauperismo avassalador apela-se para polícia e Exército. Essa é a política da classe dominante na versão Pinochet-Médici-Bolsonaro, que se conflui com o ex-Alkimin, o Dória Grey da Mario’s Covas Family que é também portador da utopia Taurus.

A imprensa e a classe média entoam o estribilho de que o país está eternamente condenado por causa da corrupção dos políticos. Todos estão convencidos da inviabilidade das instituições democráticas e o imperativo de enraizar o poder na polícia, por isso Sergio Moro é a estrela que sobe, correspondente ao Pinochet boy Paulo Guedes. Todos protegidos pelo judiciário e que não têm medo de mobilizações populares. O povo é capacho e covarde.

Nesse contexto surge Nildo Ouriques do Psol e propõe a ruptura através de uma (ainda vaga e imprecisa) revolução brasileira que não conta com a participação de nenhum setor da burguesia local. Nesse aspecto repisa o que diziam os seus mestres Rui Mauro Marini e Gunder Frank acerca da burguesia local, leão de chácara da burguesia metropolitana. A revolução brasileira não deve contar (o que seria um sinal de irrealismo) com um suposto conflito interclassista entre as burguesias locais e imperialistas.

O que fazer do ponto de vista da mobilização política com a massa marginal, urbana e rural, que corresponde a mais da metade da população? Não há como absorvê-la nem submetê-la ao regime salarial, à “disciplina salarial” como dizia Roberto Campos, o guru de todos os economistas reacionários e genocidas. O destino da escória social é a prisão ou o extermínio à Jair Bolsonaro.

A reprodução dependente da acumulação de capital não pode prescindir da progressiva repressão. A teoria da revolução brasileira não tem dado atenção à questão rural, ou seja, à multinacionalização do campo. O termo agrobusiness surgiu em Harvard. Hoje a capitania hereditária é multinacional. Leonel Brizola já dizia, chamando atenção do grande burguês de Santa Catarina, Bornhausen, que quase não havia mais brasileiro proprietário de terra.

O mérito de Nildo Ouriques é mais do que insurgir contra o complexo cultural de inferioridade, que foi objeto de análise de Nelson Werneck Sodré, Álvaro Vieira Pinto, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha. O seu grande mérito é recusar a melancolia impotente da esquerda que abdicou da vontade de transformar o país.  A maioria dos intelectuais não acredita na capacidade revolucionária do proletariado nem no pobretário sem eira nem beira. Não quero com isso cometer injustiça que seria enaltecer o Nildo Ouriques ético, mas quanto ao teórico revolucionário economizar elogios.

Em sua militância haveria a vontade revolucionária, mas não a razão de ser revolucionário no que tange às demandas sociais e de classe. Afinal, quem detém o saber da transformação da sociedade brasileira? Tão importante quanto às classes sociais a favor ou contra, é a liderança, isto é, o “caudilho” em um partido com direção revolucionária para guiar o povo.

O reformismo socialmente genocida de Paulo Guedes é a interação entre o neoliberalismo rentista e a superexploração do trabalho com a massa crescente de pobretário, ou seja, as camadas abaixo do proletariado.

A era miliciana substitui o bacharel Carlos Lacerda. Este foi substituído pelo tipo rufião, vereador, deputado, senador. O Rio de Janeiro é a vanguarda de pastores evangélicos com policiais milicianos sob a guarida do ministério da Justiça. O sadismo político da família bolsonara está amparado na crueldade do nababo Trump. Ninguém tasca os fratelli mimados da Barra da Tijuca que sob proteção dos militares que excursionaram no Haiti lendo as obras completas de Olavo de Carvalho.

A classe média e os setores populares dão trela à demonização da Venezuela feita por Sérgio Moro. Com exceção de Maduro, a América Latina inteira está amiguinha do imperialismo norte-americano com os sucessivos golpes jurídicos no Paraguay, Honduras e Brasil. Dilma, diferente de Jango, não ensaiou nenhuma atitude contra os EUA, mas estes deram sustentáculo imediato ao golpismo de Michel Temer.

Lula no xilindró. Bolsonaro eternamente grato ao Juiz Sérgio Moro. Trump sabe que tem um acólito na América Latina. É difícil afirmar que exista burguesia bolsonara que quer lucrar sem produzir nada. Os evangélicos de terno tergal abandonam sua demagogia pacífica para defender o extermínio praticado por Messias Bolsonaro e Edir Macedo. O signo criminal é onipresente.

A perspectiva de um “mondo migliore” não existe. A novidade é assumir sem disfarce o genocídio, o que pressupõe que stores da população defendam o extermínio social dos que não conseguem arrumar um lugar no mercado. Essa é a psicologia cafajeste do extermínio que ressoa na reforma da previdência de Guedes. O campo de concentração sem concentração divide a herança espermática: quem deve ou não deve desaparecer. A matança dos pobres. O modelo vem das Filipinas com o presidente Rodrigo Duterte. Eu já ouvi classe média na banca de jornal dizendo que bom não seria o corona vírus tomar conta da favela, aí haveria uma bela limpeza. De resto, limpeza é o vocábulo mais adorado pela gangue bolsonara. Limpeza no sentido hitleriano.

A submissão ridícula ao imperialismo atingiu o paroxismo com o episódio do filho do presidente que almejou o cargo de embaixador nos EUA.

Peça essencial do triunfo de Jair Bolsonaro foi Sergio Moro a visitar Harvard pela primeira vez em 1998. Graças ao mensalão de 2004 o juiz de Maringá ganhou nomeada, tornando-se sex symbol da classe média e prodígio do Departament of Justice em 2009.

Pasolini dizia que o sucesso é a outra face da persecuzione.

Nildo Ouriques contesta que Bolsonaro seja fascista, colocando em pauta esse fenômeno mais complexo da história no século XX: o fascismo.

Trotsky dizia que havia conexão entre o fascismo e o stalinismo, mas uma coisa não era idêntica a outra. Para Nildo Ouriques, Bolsonaro não é fascista, é neoliberal pesado, neoliberal obscurantista, neoliberal truculento. É importante explicar isso porque para o povo o sujeito liberal é o boa praça, flexível, gente boa, que não é dogmático, que não é turrão ou cabeça dura.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Marx, Glauber, Cascudo, Adorno e eu

Luis Câmara Cascudo


Neste título enumerativo caberá incluir o crítico de cinema Walter da Silveira. Aí sim a roda fecha com o poeta venezuelano Ludovico Silva. O que avulta é a ironia do “eu”, mas que isso não seja encarado como autofilia, a estima exagerada de si mesmo, um narciso bobão.

O linguista marxista Lindberg Campos Filho escreveu inteligente resenha sobre o meu livro Quebra Cabeça do Cinema Novo: é o estilo que revela minha maneira de ver o cinema e a sociedade.

Não estarei ruim do juízo em afirmar que, de acordo com o crítico, para entender o conteúdo desse livro, há que destrinchar a forma, o que não quer dizer formalismo. Destarte, essa questão de forma e conteúdo é o maior rebosteiro da crítica, não só marxista. Ao que parece me dano e me salvo na forma, segundo ele.

Conteúdo revolucionário implica forma revolucionária, mas esta inexiste sem conteúdo revolucionário. Todo mundo sabe disso depois da poesia concreta com Décio, Augusto e Haroldo, sem esquecer o trotskista Edmund Moniz em sua reflexão sobre Canudos. Para mim, o mais difícil, como dizia Marx referindo-se a Honoré de Balzac, é explicar a relação contraditória da personalidade, a autonomia da subjetividade do autor com a obra materializada em signos objetivos.

O autor pode ser de direita em sua opinião subjetiva e revolucionário em sua obra. A isso dá-se o nome de astúcia da mimese para explicar o “paradoxo”, não só em se tratando de ficção. É por causa disso que entrevistar o autor sobre o que ele pensa não revela grandes coisas. A caracterologia do autor (seus traços psicológicos) não é suficiente para afirmar o significado de sua obra. Faço essas considerações porque Lindberg Campos Filho passou-me o sabão por querer juntar o kino marxista de Glauber Rocha e Walter da Silveira com o folk de Luis da Câmara Cascudo, escritor tido como anticomunista que fez parte do integralismo no limiar dos anos 30. Há fotos dele vestido de camisa verde, ainda que tivesse sido muito efêmero esse sarampão integralista, o qual não deixou nenhum traço em sua investigação sobre o povo brasileiro. Conheço pouquíssima gente que amou tanto nosso povo quanto Luís da Câmara Cascudo por conhecê-lo em profundidade.

Em 1934, no auge do integralismo, escreveu um livro notável, Viajando o Sertão, que não tem nada a ver com o ideário integralista. Não se depara com o nome de Mussolini em sua obra. Por outro lado, nunca falou de luta de classes como motor da história. Citou Lênin, se não me engano, uma única vez: “sem promessa não há revolução”. Em meados da década de 20 escreveu Lopez Del Paraguay defendendo o Império. Seu amigo Gustavo Barroso não só foi a favor da Guerra do Paraguay como de 1930 em diante militou nas hostes integralistas escrevendo livros péssimos; mas antes disso foi um excelente pesquisador do povo brasileiro. Etnólogo magnífico. Influenciou o estilo e a metodologia de Luis da Câmara Cascudo. Fato é que Gustavo Barroso de 1911 a 1930 foi revolucionário pelo amor à expressão e costumes do “poviléu”, como dizia. Terra do Sol é de 1902. Gustavo Barroso informou a geografia dos trópicos do romance nordestino de Lins do Rego até o cinema de Glauber Rocha, incluindo a escola energética da biomassa de Bautista Vidal e Marcelo Guimarães. É onipresente o sintagma “terra do Sol” na literatura brasileira do século XX.

Inexiste luta de classes no sol, mas sem pôr o sol na luta de classes não se entende o trópico e o colonialismo. O invasor holandês, marinheiro e mercantil, veio para cá a fim da rapadura, de que resultou a guerra dos holandeses. Sem a Terra do Sol de Gustavo Barroso não haveria a poesia Pau Brasil, embora Oswald de Andrade odiasse o integralismo e os “galinhas verdes”.

O sol-folk, o sol democrático do povo, remete ao desenvolvimento desigual: por favor, o sol não é paulista, segundo a sociologia de Gunder Frank que em seu Reorient deixou no entanto fora Oswald de Andrade que deu a dica: avancem para o Sol!

Tirem o folclore dos fotogramas de Glauber Rocha e o cinema deste perderá a vitalidade política terceiro-mundista de Barlavento, Barravento até Riverão Sussuarana, a onça faminta cantada pela vaquejada. O curioso é que o desafio amartelado em seus filmes colide com a opinião depreciativa que tinha do folclore, ao contrário do apreço pela “cultura popular”. Há muitos autores que não distinguem folclore de cultura popular, o que não é, no entanto, a mesma coisa.

Quem filmou Luis da Câmara Cascudo ao vivo e eloquente foi Walter Lima Junior. Documentário magnífico. Digo sem receio de errar que Luis da Câmara Cascudo está mais para Karl Marx do que para Plínio Salgado. A prosa estropiada na prosódia de Glauber Rocha deve-se mais ao fandango que ao Finnegans Wake de James Joyce. Essa prosódia, a partir da relação boca e orelha, é uma maneira de se comunicar evitando que o gringo invasor a entenda, espécie de idioleto curupira ecológico como se fosse um gogó vietcong dos trópicos. No romance Riverão Sussuarana Guimarães Rosa, que não era marxista, mata o gringo imperialista na facada. O Vietnã ganhou a guerra contra os EUA com canças de bambu, advertiu Jorge Abelardo Ramos.

Navegando na nau Catarineta com Bautista Vidal mudamos a grafia do socialismo para eliminar qualquer traço plúmbeo: socialismo é solcialismo. Arrenegamos o petróleo, combustível que não pode mover a sociedade socialista. Na revolução brasileira propagada pelo meu amigo Nildo Ouriques devem ser imprescindíveis o marxismo, a energia da biomassa e o folclore. Eis a ciência do povo à moda do som da viola registrado por Gustavo Barroso: “é o surtão da maritanha seu sinhô de meio mundo, de meio solo e meia lunha qui só pru mim manda embaixada ouve-me generá e atende este ilustre embaixadô qui in tua presença espera”.

O embaixador é João Guimarães Rosa em Riverão, o rio dialético de Heráclito, o river grecotupy. Releva dizer que o folclore sem marxismo corre o risco de tornar-se macumba para turista, todavia a revolução marxista não persuade a classe operária sem o inconsciente coletivo do folclore. Resulta daí a necessidade de uma programática revolucionária que faça a síntese de Karl Marx e Luis da Câmara Cascudo e que não os apresente como galos duelando.

Dêem-me licença senhoras e senhores, a natureza dos trópicos continua desconhecida. A natureza é o corpo do homem, segundo Karl Marx. Eu não sei se o autor de O Capital, diferentemente de Montaigne, chegou a tomar conhecimento da mandioca tão odiada por Roberto Campos. Mandioca, a rainha do Brasil. Por que não insistir na mandiocália comunista? Eis a distinção: socialismo no povo porque socialismo do povo ainda não há.

Não importa no encontro do marxismo com o folclore, que aliás já foi esboçado com o afro marxista Edison Carneiro, se à noite Luis da Câmara Cascudo puxava o terço antes de dormir. Meu amigo Marcelo Guimarães não estava pensando nos filósofos pós-modernos da Unicamp com o seu anexim: só pode ser considerado intelectual de verdade quem souber 50 nomes de cipó.

Atenção: o primitivismo repudiado por Glauber Rocha em Estética da Fome está ausente em Luis da Câmara Cascudo. Basta ler Prelúdio e Fuga do Real. A recusa do anedótico. O filósofo brasileiro tematiza um assunto vital e pouco estudado: a superstição. O que dá azar, o número 13, o passar debaixo da escada. Vai baixar noutro terreiro, Exu. Erramos ao tratar isso como retardamento mental, sinal de alienação, ópio do povo, que serve para a classe dominante explorar o proletariado. Assim, remar contra o iluminismo e o marxismo é supor que haja na superstição alguma coisa revolucionária.

Nacionalismo conservador não o define. O folclore é tão universal quanto o marxismo, revestindo-se de acentuada impregnação regional: psicologicamente o homem é regional, a fisiologia é universal. A região é a fala e na entonação está o destino. Em Estocolmo, colóquio de cientistas, na hora do jantar havia um garçom servindo e falando em inglês: na bucha, Luis da Câmara Cascudo lhe perguntou: de que parte do Ceará você é? – De Baturité.

A frase “o local é indispensável” foi repisada por Bautista Vidal para conceituar a tecnologia diferente da ciência. O pacote tecnológico forâneo, o abre-te-césamo da Cepal, corresponde ao deslumbramento pelo enlatado cinematográfico.
Não há nada de passividade no bumba-meu-boi. Nem impotência na mistura do frango que veio da Europa e do quiabo from África. O conceito de tecnologia do marxista Álvaro Vieira Pinto é cascudiano: papagaio não comeu? Morreu.

Longe de mim demonizar a tecnologia. Não há grupo humano sem técnica, mas o computador por si é incapaz de fazer revolução tecnológica ou de eliminar a fome.

O erudito e poliglota Frederico Engels, que gostou da gramática da língua portuguesa, queria conhecer a rede de dormir, mais ortopédica e higiênica do que a cama, segundo o médico Silva Mello que prefaciou Luis da Câmara Cascudo gozando o desajeitado equilíbrio de Einstein no Cosme Velho com dificuldade em acomodar-se sentado na hamaca boliviana.

Gostei muito da resenha de Lindberg Campos Filho, meio que cripto-adorniana a falar do meu suposto adornianismo, se bem que o filósofo da nova música não curtisse cinema: “cada vez que eu vou ao cinema eu fico, sem querer, mais estúpido e pior”. Gostava de filme mudo que nem Jean Luc Goddard gostava pelos intertítulos e a imagem sem a muleta sonora. Se não me engano, Glauber Rocha nunca citou Theodor Adorno, autor indispensável para se entender o capitalismo videofinanceiro. Os olhos e os ouvidos estão degradados pela mercadoria. O ouvido é o órgão onipresente na cultura popular, que desde Silvio Romero não oculta o trabalho na história do homem. Todo trabalho do homem é para sua boca, o trabalho como meio de vida, não como meio de morte, segundo o professor jagunço que, pasmem, escreveu A Crítica da Economia Política na História da Alimentação. O ponto de partida não é maçã, é a banana.

Ruy Mauro Marini, nascido em Barbacena, não iria considerar um deslize antidialético juntar Theodor Adorno e Luis da Câmara Cascudo com a teoria marxista da super exploração do trabalho. Claro que não é a produção sonora a causa da super exploração do trabalho, mas é um fator condicionante em sua reprodução cotidiana. A mais valia ideológica de Ludovico Silva é antes de tudo acústica: o ouvido do trabalhado está dentro e fora da fábrica.

O rádio e a televisão são inimigos do folclore e do socialismo. E a escola obrigatória também, segundo Pier Paolo Pasolini que elaborou uma linguística materialista com base na oralidade da tradição popular. Acusado de nostalgia do passado e de irracionalismo estético. Bobagem, ele dizia, é considerar a tradição popular como guardiã da propriedade privada. Tradição é região. Guilhermino Cesar, mineiro de Cataguazes, radicado em Porto Alegre, admirador de Cobra Norato de Raul Bopp, defendia a percepção do terrunho não raro em detrimento do universal.
Moscou é cidade camponesa portadora do antigo e do milênio, segundo Pasolini que radicalizou em As Cinzas de Gramsci a paixão marxista pela cultura oral que antecede a cultura letrada. Essas duas culturas são diversas mas não adversas. Quanto a isso, Glauber Rocha é o cineasta pasoliniano dos trópicos, para quem Villa Lobos retratou o desejo do povo na assimilação das vanguardas musicais.

Villa Lobos conversa em Natal, Rio Grande do Norte. Na parede da sala a fotografia com o dizer: “que boa testa para levar um cascudo”. Assinado: Villa Lobos. Conversa sobre a escrita e o falado: aquele fica menos retido na retentiva do povo do que este. Lembro Leonel Brizola que gostava que falassem dele mais do que escrevessem sobre ele. Depois do provérbio vem a fábula e, em seguida, o mito. Os homens são governados pelas palavras: nunca existiu político mudo.

O que me comoveu no artigo de Lindberg Campos Filho é que não me considerou um abiscoitado. Bela época de minha vida foi a juvenília na USP de 68 a 78. Minha birra com a USP não é vivencial, é política. O desenvolvimento desigual do capitalismo paulistrocêntrico contribui para a exploração imperialista no Brasil, tal qual acontece com Buenos Aires, conforme informou Juan José Hernández Arregui.

Repara Lindberg Campos Filho que o sujeito da história desapareceu: leia-se o sujeito genérico da história, então há uma crise da práxis. E eu nela estou incluído: “não me parece ser coerente ter uma régua tão dura para ususpianos e paulistas em geral, ao mesmo tempo em que se abraça o projeto intelectual de Adorno transformando em ideologia da resignação”. Quietismo. Não sei se originalmente o “projeto” de Adorno tivesse sido resignado, o hotel burguês de 5 estrelas segundo Lukács. De mãos dadas com Greta contemplando o mundo como um abismo, sem querer transformar o mundo, ou se sou eu um conformista pequeno burguês avesso à revolução proletária. Um bundão que não se opõe ao mundo tal qual é.

É mister separar os alhos dos bugalhos e não baralhar as asas com as patas. Sou paulista, minha mãe nasceu no interior de São Paulo, e está enterrada em Santa Adélia. Destarte, as duas grandes figuras intelectuais que marcaram minha vida foram Monteiro Lobato e Oswald de Andrade. No jornalismo foi Claudio Abramo que não gostava de Mario de Andrade.

Exilado nos EUA Theodor Adorno escreveu A Dialética do Iluminismo e anteviu o Curriculum Lattes, o positivismo norte americano que substituiu o “conceito” por “fórmula” no triunfo da “mentalidade factual”. O número é o “cânone do iluminismo”. Tudo o que não é quantificado é ilusão e mentira. O petucanismo pode ser visto como um neo positivismo pegando o sabonete para Rockfeller.

O que há de divergência entre o folclore e o marxismo já sabemos, o lance é saber o que há de comum entre uma coisa e outra. O ponto de partida é a superstição, que não se confunde com a religião. A presença da superstição é maior do que a religião na cultura popular. Marx, Engels, Trotsky e Lênin abominaram a superstição e viram o místico identificado com o irrealismo reacionário. Na cultura brasileira não foram poucos os artistas que se valeram do acervo supersticioso. Há beleza linguística na voz supersticiosa do povo mais que nos credos religiosos para não dizer nas teses acadêmicas. Será que não haveria um componente socialista na acústica supersticiosa do povo?

A igreja de Edir Macedo tem uma atitude cínica e oportunista em relação à superstição. Ela é refratária à magia, aliás a igreja católica também é hostil à mentalidade supersticiosa. Por que a religião é hostil à superstição? Luis da Câmara Cascudo informou que as superstições são construídas com resíduos religiosos, embora não se confundam com a religião. A semântica da palavra superstição é “supersticium”, em latim significa aquilo que sobrevive.  Ora, aquilo que sobrevive na experiência popular não pode ser revolucionário?

Pergunto: por que a reflexão marxista não atina para a superstição como um potencial socialista no povo? Não acredito que a presença da superstição, ou o modo pelo qual ela entra na cabeça do povo se deva à fé e ao batismo nas igrejas. Não é simplesmente por meio da fé que o homem do povo é supersticioso.

Edison Carneiro, autor de Candomblés da Bahia, estudou o feminismo na Bahia, assim como a pioneira insurgência intelectual feminista nasceu com o folclore no Rio Grande do Norte. Não chego a ponto de dizer que Luis da Câmara Cascudo escreve com estilo feminino e inteligente. Certa feita Glauber Rocha chamou Frederico Fellini de cineasta mulher.

Edison Carneiro tal qual Nina Rodrigues, que é o pai dos estudos africanos no Brasil, achava que o negro não tinha desafricanizado em suas crenças religiosas. A África do outro lado do atlântico. Nisso difere de Luis da Câmara Cascudo, para quem o negro africano se tornou negro brasileiro. O devoto do Candomblé espera e quer que as divindades sejam recebidas por ele, dai o santo que baixa, a baixada do santo ou o cavalo do santo. A possessão do espírito desce com o mensageiro Exu, elemento crucial no Candomblé, macumba e Umbanda.

As religiões no Brasil, catolicismo, budismo e espiritismo estão tentando sempre apropriar-se dos cultos populares baseados na possessão. O copo d’água no espiritismo, os guias, os irmãos do espaço, os banhos de descarga, o exu abrindo garrafa de cachaça, as caixas de fósforos, os ebós e despachos em encruzilhadas, tudo isso fundamentado na existência da superstição, Exu tranca rua, Exu caveira. A pomba gira é o equivalente feminino de Exu.

As igrejas evangélicas são chupins que vampirizam os cultos populares.

Para o homem do povo brasileiro o céu não é moldado por aquilo que o padre ou pastor prega. O que é o céu para o homem do povo? Trata-se de um céu supersticioso que não difere das frases feitas sobre a morte que no Brasil não baila. A internet ainda não deu outro céu para o povo. Imagine um partido político revolucionário que tivesse por incumbência suprimir a superstição do povo, uma didática que eliminasse pouco a pouco essa maneira do povo pensar. Impossível. Seria um partido fadado ao fracasso. Se tivesse mais escola, se tivesse mais gente alfabetizada, a mentalidade supersticiosa iria desaparecer? Quanto maior o nível cultural menor é a superstição? Luís da Câmara Cascudo responderia: não.

Folclore, marxismo e feminismo. Para onde me levas, Cascudo? Livro publicado em 1947 nos EUA, A Cidade das Mulheres, no Brasil veio a lume em 1967. De autoria da antropóloga Ruth Landes, livro essencial para atacar a hegemonia evangélica do governo Bolsonazi que é inimigo do Candomblé e das crenças afro-brasileiras. Ruth Landes sublinha o poder das mulheres no Candomblé de Salvador, e também dos pais de santo homossexuais, objeto de ódio e perseguição da milícia bolsonara.

A antropóloga Ruth Landes e o etnólogo Edison Carneiro namoraram e fizeram do Candomblé um colóquio com babalorixás e mães de santo marxistas, mas isso não quer dizer que tivesse ocorrido a convergência do marxismo com o folclore na década de 30. Edison Carneiro escreveu A Dinâmica do Folclore a fim de mostrar que o folclore poderia ser um instrumento de emancipação popular. A presença feminina no Candomblé deveria ser motivo de reflexão das mulheres marxistas, tendo em mira a opressão machista da Igreja Universal Reino de Deus que seduz muitas mulheres idiotizadas.

Há que se realçar que a contradição é menos entre Igreja evangélica e Igreja católica do que entre evangélicos e umbandistas, não obstante as afinidades destes com o catolicismo, conforme mostrou Roger Bastide na década de 60. Roger Bastide juntou Freud com folclore ao escrever a psicanálise do cafuné, mas deixou Karl Marx de lado. Florestan Fernandes começou pelo folclore do bairro do Bom Retiro, mas o abandonou quando abraçou a teoria do desenvolvimento.

O folclore deve ser visto como um desafio colocado pela luta de classes na história, de modo que hoje não seria disparate conceber uma frente folkmarxista de mulheres e homossexuais oprimidos contra a repressão sexual bolsonara.

Ainda não foi explicada a fascinação popular que tem exercido a Igreja evangélica, que não é cura terapêutica, religião, teologia, a não ser auto-ajuda mistificadora. Eis a questão que ainda não foi esclarecida: qual é a psicologia do devoto evangélico? Não se conhece ex-renegado que abra o jogo acerca da sedução evangélica, ou dos motivos pelos quais alguém entra na seita tal ou qual.
Ao contrário do Candomblé com sacerdotisas, mães de santo e Adés (sacerdotisas não raro homossexuais), nas igrejas evangélicas as poucas pastoras são personalidades fálico-argentárias.

Um pastor não se confunde com um babalorixá porque este no Candomblé é um intermediário dos deuses ou o seu cavalo. No mundo evangélico não há santo. O pastor evangélico é a reprodução do dinheiro e este é amado como um deus. Basta olhar as mãos do pastor. Dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Por que o povo pobre está preferindo os evangélicos aos Orixás?

O dinheiro na mesa da Umbanda não se destaca como o crédito e o débito dos pentecostais. O pauperismo da sociedade brasileira predispõe o interesse pelo dinheiro vivo aos orixás mortos do Candomblé.

As Igrejas evangélicas são carentes de rituais e cerimoniais. Ausência do tambor. Fernando Ortiz em Cuba dizia que o povo aceita santos milagrosos, mas não um Cristo morrendo na cruz. Em seu último filme A Idade da Terra Glauber Rocha mostrou que o gringo do FMI tem medo é de Cristo fora da cruz.

As igrejas evangélicas não toleram a existência da superstição. Depois de eleito Jair Bolsonaro foi ungido por Edir Macedo que tem horror das crendices populares, macumba, candomblé, umbanda, incitando a violência contra os umbandistas nos morros do Rio de Janeiro.

Na filosofia racionalista a superstição é encarada como se fosse o ópio do povo. Por outro lado, a mentalidade popular é contra a racionalização da Fé. Deus não pode ser explicado. Luis da Câmara Cascudo oferece uma explicação racional da superstição. A superstição submetida à análise científica. Lendo seu livro Tradição Ciência do Povo basta substituir o vocábulo “tradição” por superstição: a ciência da superstição. A superstição é o continuum do tempo sem tempo.

E a superstição no tocante à indústria cultural? A indústria cultural é indissociável do fascismo. Observo que as telenovelas não conseguem retratar a superstição. O capitalismo monopolista e os seus agentes ideológicos, incluindo os aparatos religiosos, almejam solapar a permanência das superstições. A Igreja Universal Reino de Deus tem como adversário, não o Vaticano, e sim a crendice popular. Edir Macedo odeia o Saci Pererê e não o Papa Francisco.

A investigação cascudiana releva o universalismo no regionalismo, buscando o que há de universal na região e a importância da oralidade na superstição. A abordagem linguística da superstição, das frases feitas, da maneira do povo falar, a linguagem errada do povo, dizia Manuel Bandeira. Que está em Oswald de Andrade, em Gregório de Matos, em José de Alencar, que está em Glauber Rocha, em Guimarães Rosa e em Jose Lins do Rego. 

A oralidade popular está eivada de crendices e superstições. A Igreja Universal Reino de Deus não tolera a expressividade oral do povo brasileiro.
O Dicionário Houaiss é superficial ao definir a superstição como confiança em coisas absurdas. Ora, a superstição na vida cotidiana é funcional, não tem nada de absurdo A Igreja Católica desde Tomás de Aquino é contrária à superstição.
Então onde haveremos de buscar elementos para fazer a revisão crítica, apontando que a superstição pode ser progressista e liberadora do povo brasileiro?

A visão racionalista sobre a superstição é contrária à frase de Luis da Câmara Cascudo, segundo a qual “não há momento na história do mundo sem a inevitável presença da superstição”.

O Brasil possui um Dicionário do Folclore Brasileiro: língua, visão de mundo, usos e costumes. Afinal, o marxismo como ciência da revolução nada tem a ver com o folclore como ciência do povo?

A superstição portuguesa não retardou a epopeia navegadora. A superstição não é necessariamente a ideologia da classe dominante. Por que não haverá uma humanidade livre do capital e norteada por um folclore revolucionário? Não digo mais nada e nem me foi perguntado.



BIBLIOGRAFIA

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__________________________.  O capital: crítica da economia política. Livro 1: O processo de produção capitalista. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971
PASOLINI, Pier Paolo. Le ceneri di Gramsci. In:______.Tutte le poesie. Milano: Mondadori, 2003.
ROCHA, Glauber. Riverão Sussuarana. Editora: EdUFSC. 2012.
VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Quebra Cabeça do Cinema Novo. 1 ed. Rio de Janeiro: Galpão de Ideias Leonel Brizola, 2018.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A Democracia Grampeada vista por Karl Marx

Não há como escapar...

Se a conversa da presidência da República já foi grampeada, então adeus vida privada.

Todos somos dedos-duros.

Terrorismo da escuta: é isso a delação Lava Jato.

Somos o país de delatores premiados.   

O Supremo Federal se nutre de arabescos linguísticos horrorosos. É a mesma retórica dos jesuítas: usar a língua para esconder o pensamento.

O juiz é um sofista. Afinal, não é a constituição que cria o povo, mas é o povo que cria a constituição. Tudo está invertido. O homem não existe para a lei, mas sim a lei para o homem.

A linguagem do Supremo não é ciência, e sim escolástica. A sociedade civil é o cenário dos interesses antagônicos, incluindo a polícia e o judiciário.

O executivo é a administração burocrática. A burocracia pressupõe o espírito de corporação. O espírito burocrático é jesuítico e teológico.

A burocracia, segundo Marx, é a “republique prêtre”. Ninguém escapa da burocracia. A autoridade é a base do conhecimento. A hierarquia é burocrática.

A existência do burocrata se confunde com a existência do departamento nas universidades.

Todo católico almeja ser bispo ou papa. O exame é o batismo burocrático do conhecimento. O examinador acha que sabe tudo.

Os cristãos são iguais no céu, mas desiguais na terra e no bolso. Os indivíduos membros do Estado são iguais na Constituição e diferentes na sociedade.

Karl Marx criticou a jurisprudência com a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Charlatanismo jurídico é a combinação da vontade dos pobres e o sentimento de caridade dos ricos.

Os pobres são eles mesmos os responsáveis pela pobreza. O pauperismo é o resultado das deficiências na administração e da gestão incompetente.

O Supremo Tribunal Federal deveria ser tal qual o amor: nem comprar, nem vender.

A liberdade de imprensa não pode ser permitida se ela compromete a liberdade pública, dizia o jovem Robespierre citado por Marx em A Questão Judaica.

Inferno é não ganhar dinheiro.

A lei legitima a opressão do pobre pelo rico. Owen, o fundador do movimento socialista, considerava as coisas mais abomináveis o casamento, a religião e a propriedade.

Os tribunais estão profundamente imbuídos de teologia em sua maneira de se expressar e ver o mundo. Todo direito é o direito à desigualdade.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Samba da sociedade infeliz

109 anos de Noel Rosa

A indústria capitalista do barulho. A mais-valia acústica deforma a audição. Os trabalhadores são as principais vítimas. Em muitas atividades funcionais do dia a dia é dispensável o ruído, mas este nunca desaparece; ao contrário aumenta cada vez mais.

A anatomia civil da sociedade capitalista depois de 1945 exige a abordagem sonora. É isso o que fez Theodor Adorno completando a análise de Marx que não conheceu a eletrônica. Esta não altera a essência do capitalismo, porém o rádio e a televisão interferem na maneira de ouvir, falar e pensar.

O repúdio capitalista ao silêncio. A morte deixa de ser surda com a motoca. Se a consciência de classe do proletariado for depender do funk, estamos fodidos.

Falsa alegria. A música popular entorpece o ouvido. A capacidade de conversar é erodida. Ouve-se sem ouvir. Afasia é coletiva.

O ouvido do trabalhador continua dentro da fábrica ao ouvir a indústria cultural.  A telenovela está fora e dentro da fábrica.

Interclassista com massa sobrante e os estamentos multinacionais. Luta de classes. A onipresença do ruído é burguesa.

Ninguém é maluco de afirmar que o real curso da história depende do que se ouve; todavia equívoco é não considerar que a classe social no subdesenvolvimento está envolvida em relações sonoras e óticas. Os partidos políticos operam com o mesmo padrão acústico, a despeito das diferentes classes que eles representam.

A impressão que se tem, analisando o programa eleitoral gratuito, é que a sociedade é uníssona. Todos os sons são um único e mesmo som.
Nos últimos 50 anos a compulsão tagarela, falar sem dizer nada, suprimiu o desejo de ouvir. A cortesia é do barulho.

A posse da ministra do Supremo Tribunal Federal foi entoada por cantor de telenovela. Redundante é falar em juristização da política. Na verdade o judiciário é um apêndice da telenovela.

Viva Marcela
Lá lá lá
Viva telenovela
Lá lá lá lá

Roliudi forneceu o aplicativo cosmético para o star-system. Reparem a gravata de Gilmar Mendes, o ministro Flux trocando de abotoadura, Levandowski pintando o bigode de Merval Pereira. O judiciário espelha e reproduz a gestuália telenovelística.

O banco é o sujeito, o predicado é o judiciário.

Karl Marx, que fez a crítica do direito de Hegel, dizia que o banco era o areópago da nação, ou seja, o Supremo Tribunal de Atenas.

O julgamento jurídico legitima a sociedade dividida em classes. A lei, em sua origem, é política.

Inexiste juiz imparcial, assim como a igualdade democrática é uma quimera.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Leonel Brizola e os filhos do doutor Roberto Marinho



Estarei eu a tresvariar dizendo que a TV Globo pode fazer as pazes com Leonel Brizola? Ou ele continua o seu inimigo póstumo? Derrotado por Collor em 1989 disse que seria ruim essa televisão deixar de ser propriedade de brasileiro. Confesso que fiquei atônito com isso; afinal, Leonel Brizola levou bordoada o tempo todo de Roberto Marinho, o seu principal opositor político desde antes de 1964.

Com a ditadura esse conflito não fez senão acirrar-se; conflito não de natureza pessoal, porquanto aos olhos do caudilho a TV Globo continua funcionando como agente das perdas internacionais. É a TV da ocupação imperialista que justifica o lucro exportável.

Quem paga o anúncio escolhe a orquestra. O anunciante é multinacional. Inexiste televisão que seja nacional na Ásia, África e América Latina. Todavia, um proprietário estrangeiro seria um desastre. Imaginem um Murdoch ao invés de Roberto Marinho.

Se o território está vendido, tudo está vendido.

Decerto os filhos do doutor Roberto Marinho estão inteirados da correspondência entre o pauperismo no Rio de Janeiro e o descenso da TV Globo.

Será que a TV Globo não mais põe nem tira presidente da República?

A Record é uma TV-Igreja-partido com mensagem transmitida por pastores e militantes pagos. A presidência da República está nas mãos da oligarquia evangélica.

Ainda que sem fazer uso do púlpito fraudulento, Henrique Meirelles pediu oração para a economia ir bem, dando a impressão que Jesus Cristo é seu amigo desde o Consenso de Washington. Esse charlatão durante o governo Lula chefiou o Banco Central.

Com Temer ficou ele todo saidinho, exibido, metidaço, cheio de si, bonecoso, mas não conseguiu livrar-se de sua medonha dicção aerofágica.

O imperialismo exorbitou o dualismo regional entre São Paulo e as demais regiões.

A TV Globo, cúmplice do golpe de 64, entrega o poder midiático ao bispo Macedo.

Na cúpula da Globo cogita-se a providencial transferência do Papa de Roma para o Rio de Janeiro.

A burguesia evangélica começou pela acumulação feita com o dízimo.

Gondim da Fonseca, o inventor do vocábulo “entreguismo”, dizia que a UDN era católica, o berço da TV Globo.

Ninguém foi mais profundo que Karl Marx: a moeda é católica, o crédito é protestante.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Kit marxista folk

Matar a cultura é exterminar um povo

Amalgamar o marxismo com a ciência do povo não desperta entusiasmo nem de um lado nem de outro, nem da parte dos marxistas nem dos estudiosos do folclore.

Dizem que estou louco, que Luis da Câmara Cascudo era um aristocrata, filho de papai rico, tomava água em copo de cristal. E mesmo depois que o pai morreu, não perdeu sua personalidade aristocrata.

Marx nunca teve vida fácil em termos de dinheiro. Eu penso que no Brasil esses dois saberes científicos teriam de se juntar em um todo teoricamente orgânico. O povo e a classe social indissolúveis.

Marx morreu dormindo aos 65 anos, escrevia até às quatro da manhã, fumava muito e tomava café com estômago vazio.

Quando fui visitá-lo (Luis) pela única vez em sua casa na Junqueira Aires pela manhã, fui informado de que ele só recebia as pessoas do meio-dia em diante.

Ia da rede de dormir para sua máquina Remington de escrever.

O silêncio da madrugada percorre as páginas de seus livros. O melômano. O musicólogo pensando a música depois de ficar surdo.

Ludovico Silva, poeta venezuelano que ensinou marxismo para Darcy Ribeiro, viu semelhança estilística entre Marx e Betoween.

Não deslembrem que no folclore encontra-se a busca incessante da particularidade do Brasil no processo civilizatório.

A sociologia da USP com Florestan Fernandes decretou o imobilismo do folclore como se fosse um túmulo, como se nele estivesse ausente o devir histórico.

Isso não é verdade porque a cultura popular se dinamiza na fala e nas coisas que o povo diz.

Não por acaso Luis da Câmara Cascudo foi exímio linguista e extraordinário semiólogo.

Marx afirmou que a linguagem é a consciência prática do homem.

Creio que o fato de o Brasil possuir um dicionário do folclore deveria ser objeto de reflexão filosófica. Da minhoca ao cosmos.

Em sua totalidade a polis brasileira pode ser expressa pelo léxico do folclore.

Se Karl Marx tivesse vindo para cá, desembarcando na praça 15 no centro do Rio de Janeiro, ouvindo os pregões de rua, decerto iria conhecer o Brasil por Luis da Câmara Cascudo, em cuja obra está transfigurado o jeito do povo viver, sonhar, comer, falar, trabalhar e morrer.

O povo está muito mais em dom Luis do que em qualquer outro grande autor marxista.

O marxismo é a ciência da revolução, mas a ciência da revolução pressupõe o conhecimento do povo em seus quadrantes regionais.

Por isso não vejo antinomia entre folclore e marxismo.

Não vamos cair na esparrela de recusar essa programática revolucionária por não estar visível a luta de classe nas peripécias do Sacy Pererê e nas andanças do lobisomem subproleta que desce do norte para o sul.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O caudilho Leonel Brizola está morto e eu não estou na comédia de auditório




Quando Cláudio Abramo em 1977 me convidou para escrever editoriais na Folha de São Paulo, o jornalismo progressista já era.

Tímido, em silêncio, o jovem Octávio Frias Filho, que parecia um beneditino seminarista, espreitava parado na porta. Aí eu perguntei para Cláudio: – quanto eu vou ganhar? Ele respondeu: – dinheiro não é comigo. Fale com o Boris Casoy.

– Quem é esse cara?
Cláudio: – pergunte por aí que lhe informam.

A equipe de editorialistas tinha por objetivo aproximar a imprensa da universidade e, ao mesmo tempo, cooptar os intelectuais da imprensa alternativa.

Em 1978, Rio de Janeiro, apartamento emprestado na Rua Vieira Souto, Glauber Rocha queria saber de mim quem havia sido a pessoa que o convidara para escrever na Folha de São Paulo.

– Cláudio? Samuel Wainer?
– Talvez Octávio Frias Filho.

Alguns meses depois Glauber Rocha interrompeu sua colaboração na Folha de São Paulo. Ele me perguntou quanto o jornal pagava por artigo.

– Que vergonha!

Ainda que alijado da direção, Cláudio Abramo era o epicentro do jornal. Um montão de gente ia vê-lo. Do senador Severo Gomes a Glauber Rocha. Este, quando o conheci em 1978, ao lado de Cláudio Abramo e Samuel Wainer, pegou no meu braço e cochichou: – Daqui a dez anos você estará no poder.

Cláudio Abramo ouviu a gozação de Glauber: – Que nada! O guri daqui a dez anos estará na direita.

Perguntei para Samuel Wainer o que ele achava do cineasta, esperando certamente ouvir altos elogios. Samuel foi seco, lacônico: – um gênio, mas maluco.

Em 1988, dez anos depois, leio as memórias de Samuel. Em 1967, no exílio em Paris, foi enrolado por um cineasta grego picareta; sua ex-mulher, Danuza Leão, musa do Country Club, trabalhou no filme de Glauber, fazendo o papel de amante do poeta e jornalista Paulo Martins, amante grã-fina que lhe foi cedida por Porfírio Dias, o alterego de Carlos Lacerda, o ditador coroado pelo latifúndio e as multinacionais de Eldorado.

O filme Terra em Transe é simultaneamente a história do janguismo e uma metáfora barroca do lacerdismo.

Glauber Rocha dizia que Carlos Lacerda, o censor de Deus e o Diabo na Terra do Sol, inspirou a dramaturgia de Terra em Transe.

Em 1980 Samuel achou que eu teria voltado esnobe de uma bolsa de estudo no exterior, escrevendo coisas ininteligíveis: –jornal não é brincadeira de intelectual!

Samuel Wainer valorizou a retórica do inimigo Carlos Lacerda que, segundo ele, nunca foi jornalista porque desconhecia o funcionamento tipográfico do jornal, e também porque não conseguia transar legal a redação. Carlos Lacerda rebateu a crítica dizendo que Samuel Wainer gostava mais de jornal do que do país.

A imprensa de que falava Samuel Wainer mudou muito pouco, a mesma reprodução familiar do dono, assim como o mesmo cerco contra Leonel Brizola.

Samuel Wainer: “a imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder”. Não obstante a atitude hostil da imprensa, Getúlio Vargas ganhou as eleições de 1950 em São Paulo.

O antigo bloco da UDN, representado pelo trinômio Xatô-Lacerda-Roberto Marinho, reapareceu na oposição a Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Se estivesse vivo, envolvido com a grande imprensa carioca e paulista, é bem provável que Samuel Wainer, a julgar pela sua visão sobre o golpe de 64, não votaria em Leonel Brizola, o último caudilho antiimperialista.

Glauber Rocha sacou que Wainer era mais rooseveltiano que getulista.


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O último gênio a visitar Prelúdio e Fuga do Real

Marxizar Cascudo e cascudizar Marx

Do meu amigo Vicente Serejo vem por telefone o amável convite e, ao mesmo tempo, intelectualmente espinhoso, para evocar o último gênio a visitar Luis da Câmara Cascudo no assombroso livro "Prelúdio e Fuga do Real".

Na casa da rua Junqueira Aires subindo as escadas o convidado é anunciado pela empregada:

– Seu Cascudo, tem aí um homem barbudo, gordo, falando uma fala que não é daqui.

Já entrando, cordial e bem educado, mas sem o cerimonial burguês. Era Karl Marx, o autor de O Manifesto do Partido Comunista.

– Frederico Engels não veio?

– Não - respondeu Marx - Ele está cuidando da edição do segundo volume de O Capital.

O diálogo interpessoal desfaz o mal entendido epistemológico. Marx considera Cascudo o intelectual socializado no amor pelo povo.

Quem teria amado o povo tanto assim?

O socialismo do povo está em você, don Luis, amar e conhecer em profundidade, 150 volumes sobre a produção e a reprodução das gentes brasileiras.

É preciso dialetizar o tempo e o espaço, além do cotejo biográfico e das preferências subjetivas. O paradigma é Honoré de Balzac, revolucionário no romance e conservador em termos políticos.

– Você nunca me citou em seus livros. E teve do comunismo a deformação stalinista corrente na década de 30. Isso, no entanto é aparência, não a essência das coisas. Quanto à necessidade da ciência para distinguir a essência da aparência, você escreveu um tratado materialista com originalidade daqui de Natal.

Sentado na rede de dormir Karl Marx refere-se à ciência do povo extraída da tradição, que é o lugar culturalmente revolucionário em país colonizado.

Não há dissídio entre folclore e marxismo, a não ser no salão burguês, conforme evidenciou Edison Carneiro, pesquisando Umbanda nos terreiros de Salvador.

A oralidade folk antecede a erudição letrada. Na Itália o subversivo Pier Paolo Pasolini juntou no cinema épico o marxismo com a cultura popular. “Eu sou uma força do passado”, dizia ele. O novo Dante do folclore escreveu um longo poema sobre Antonio Gramsci.

Equívoco é identificar tradição (o que se transmite oralmente) com defesa da propriedade privada.

O historiador potiguar mostrou que o dia a dia supersticioso do povo gira em torno da força de trabalho, a qual não deveria ser sacrificada à acumulação de capital. Resulta daí a expressão lúdica, o homo ludens na cultura popular, que se traduz pela predominância do valor de uso, digamos, a economia política do solidarismo. No regime socialista o mutirão é uma espécie de adjutório sem os donos dos meios de produção.

O trabalho é meio de vida, não de morte. Essa frase está em um dos livros do mestre que corrigiu o aforismo nababo de Lombard Street: time is money, mas – atenção – dinheiro não é tempo.

Absolutamente não importa que não houvesse operário e fábrica na Natal plebeia de Fabião das Queimadas.

O filósofo Epicuro era comunista na Grécia, segundo tese de doutorado de Karl Marx. A educação do desejo. Os sentidos se educam.

O mundo é meu amigo, segundo o filósofo do jardim das delícias.

A filosofia da miséria é a miséria da filosofia recusada pelo folclore. Vale a frase de Luis da Câmara Cascudo: viva a fartura que a miséria ninguém atura.

Karl Marx tinha razão de visitar o Epicuro do Nordeste.

Marxizar Cascudo e cascudizar Marx, eis a diretriz revolucionária para o povo brasileiro.

Saravá.

Karl Marx desceu as escadas como subiu naquela tarde de verão.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Do tiro no peito de Getúlio Vargas ao tesão que Lula tem pela vida


Lula sem bala na agulha

Lula ante o indeclinável imperativo do desmascaramento histórico: chutar o pau da barraca e escancarar sem rebuço as ladroagens dos bacanas, empresários e políticos, inclusos os proprietários de jornais e TVs.

A privatização internacional foi iniciada sob o auspício de juízes e promotores que envergam as togas entreguistas e impatrióticas da telenovela.

Urge autocrítica radical e implacável de si, porquanto seu partido desacreditou a capacidade revolucionária da classe operaria, não só de São Paulo.

Indicar um candidato às eleições de 2022 somente logrará efeito mediante um abrir o jogo que abale a hipocrisia da burguesia bandeirante. Sabemos da historia repetida como farsa, porém não se trata da mesma situação vivida em 1954 por Getúlio Vargas entre a vida e a história.

Quem conhece a cozinha do trabalhismo não pode olvidar que Leonel Brizola, embora reconhecesse a magnitude da crise de 1954, discordou do derradeiro gesto suicida de Getúlio Vargas, encarando-o sob o signo da desistência política, pois era possível fazer alguma coisa para enfrentar o imperialismo e os seus lacaios lacerdistas.

Leonel Brizola no cemitério de São Borja, diante da sepultura de Getúlio Vargas, perguntou a Lula se teria alguma coisa a falar com o ex-presidente suicidário. Desde 1979, por ocasião de seu primeiro encontro com Lula em São Paulo no sindicato, certificou-se que o líder metalúrgico nada sabia a respeito de Getúlio Vargas, o maior líder burguês da classe operária, segundo o historiador Nelson Werneck Sodré.

O PT chegou a manejar cinco mil diretórios e o seu líder viveu em paz com todas as classes sociais. Proeza de bonapartismo.  Companheiro de viajem da burguesia internacional. Isso culminou com a chapa Dilma-Temer sob a anuência dos sindicalistas aburguesados. Nem se diga que haja abismo entre palavras e atos. Lula nunca se considerou de esquerda, marxista, nacionalista, antiimperialista. Ele tem sido um embaixador da luta de classes.

Acreditou e talvez ainda acredite que a justiça seja apartidária. Os juízes do Supremo Tribunal Federal são nomeados pelo Presidente da República. Lula nomeou quatro.

Será que temos de procurar juízes em Berlim e em Quixeramobim?

João Goulart errou na escolha dos ministros militares Kruel, Jair Dantas, Peri Bevilacqua. Não nomeou o general Osvino Ferreira Alves.

João Goulart foi derrubado não porque se moveu à esquerda, mas porque se agarrou à direita.

A psicologia bizonha de Lula pós-xilindró não o redime de ter impedido que Leonel Brizola chegasse ao poder em 1989.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Leonel Brizola, São Paulo e Índios

Cena do filme Anchieta, de Sarraceni. Quando deus é a morte do outro

Raivoso, neurótico, ressentido por descer o sarrafo na hegemonia econômica e cultural exercida por São Paulo, a ideologia dominante na periferia capitalista. Quanto a isso tenho os meus antecedentes: Walter da Silveira, Gunder Frank e Glauber Rocha. Sem falar em Oswald de Andrade que mostrou que a classe dominante paulista é xifópaga do capital estrangeiro.

Os intelectuais paulistas de direita, originários do constitucionalismo de 32, contraíram uma tara exógena que se prolonga com o petucanismo consular.

Escrevi Leonel Brizola e a História. Além de protagonista, o historiador, intérprete do passado que explica o presente e aponta para o futuro.

Reparo que “teoria” etimologicamente significa ver. Ver as coisas, ver os acontecimentos, ver as ideias, enfim, ver com os olhos livres.
Ver e ouvir o fio da história. E, nesse aspecto, ousaria dizer que não há outro entre nós a não ser Leonel Brizola.

Não é fácil deparar com um político que escreva, que fale, que comente o sentido histórico sobre o que está fazendo.

Na maioria das vezes quem atua não escreve sobre o que está acontecendo. Atuar e pensar a história ao tempo, eis o exemplo de Lênin e Trotsky, os dois intelectuais que fizeram revolução russa de 1917.

Quantas e quantas vezes Leonel Brizola não repetiu que vinha de longe, que conhecia as manhas e artimanhas da história. Atenção: quando digo historiador não é escrever tese acadêmica de história. Isso tem às pencas por aí.

O presente como história foi abordado por Leonel Brizola em seus gestos e em sua prosódia.

Leonel Brizola sempre foi contra (antes de surgir o malvado Paulo Guedes) a concepção segundo a qual os velhinhos são inúteis à economia.

Aos velhos aposentados a morte.

Jair Bolsonaro é bruto, tribal e sádico. O cristianismo democratizou Deus, mas o nosso Deus não pode ser o Deus dos outros. Estou com Karl Marx contra mundum.

Na Bolívia, a Bíblia branca mata os índios. A Bíblia é o maior best-seller genocida. Willian Morris, o socialista romântico inglês, de quem o historiador marxista Eduard Thompson era admirador e entusiasta, queria a “educação do desejo”, que não é a mesma coisa que “educação moral”, ou seja: “to teach desire to desire, to desire better, to desire more and above all to desire in a different way”.

Darcy Ribeiro, que ficou sem escola para divulgar o seu próprio pensamento, dizia que a luta de classes iria cada vez mais enredar-se na etnia. Etnia é luta de classes. A nova guerra do Paraguay está se configurando na Bolívia: Trump, UDR bandeirante e Planalto Bolsonaro.

Vamos tacar fogo na rede de dormir.

Amém.