terça-feira, 9 de maio de 2023

O fascismo videofinanceiro

 


Sou como Pasolini. Queria fechar as TVs particulares, esses aparatos fascistas, destrutivos e perigosos. A TV padroniza, aliena, e está a serviço do imperialismo estadunidense. Também como Pasolini detesto a violência irracional, aquela que não está direcionada para a luta de classe. Hoje temos visto a violência sem razões. Este é o tema do comentário de Gilberto Felisberto Vasconcellos no Programa da Rádio Comunitária Campeche, apresentado por Elaine Tavares. (15.04.2023)

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Sem teoria revolucionária é retórica a revolução


Nildo Domingos Ouriques mostrou que nas últimas eleições Ciro Gomes se aproximou de Mangabeira Unger e deixou o legado trabalhista de Leonel Brizola a ver navios. Saibam quantos lerem o Cascarrabias de Joaçaba que é necessário a revolução socialista na abordagem do presente como história. A interação dialética do mediato com o imediato, que está em Hegel e Lênin, depois desenvolvida em História da Consciência de Lukàcs, não deve na latitude subdesenvolvida ser substituída pela oposição entre pobres e ricos.

O palavreado vale de lágrimas sobre a pobreza menoscaba o conceito marxista de super-exploração da força de trabalho que define, segundo Ruy Mauro Marini o conjunto da nossa vida social. Ocultar a superexploração do trabalho é a mistificação empreendedorista, quer no púlpito católico, quer na tenda pentelhocostal de Edir Macedo.

Estamos lidando com a tríade clérigo, bacharel e economista. Da primeira missa em Porto Seguro ao Lava Jato de Kurytyba. Tudo entre nós redunda na tediosa linguagem jurídica da paráfrase, cuja origem está na religião, conforme informou Karl Marx. Religião, direito e agora indústria cultural com os ancoras metidos a besta. Iniciados em conventos, os cursos jurídicos bacharelavam os filhos do latifúndio e os purificavam com água benta. Lei e “padre nosso”. E lei, como se sabe, nunca foi sinônimo de justiça. Recorde-se a lei do ventre livre.

Oswald de Andrade dizia que o câncer da cultura brasileira era a Faculdade de Direito Largo do São Francisco por onde passou imperceptível o jornalista Roberto D’Ávila que em 1989 dirigiu a campanha eleitoral de Leonel Brizola na televisão. A maior contribuição cultural da Faculdade de Direito foi o trote, segundo a bela sacada de Oswald de Andrade.

Leonel Brizola entrou na política em Porto Alegre com a carteira de identidade anticapitalista. Ao contrário de Getúlio Vargas e João Goulart, que se tornaram anti-imperialistas no decurso do tempo e de suas militâncias, Leonel Brizola em 1945 percebeu que o problema essencial do país era a dependência. Segundo Paulo Shilling, representava Leonel Brizola o nacionalismo popular revolucionário. Anti-imperialista, conforme sublinhou o trotskista Edmundo Moniz, diferente de Mario Pedrosa que, depois de passar pela Quarta Internacional em Paris, virou petista.

Segundo Leonel Brizola, informou Edmundo Moniz, não há desenvolvimento (ou melhor, progresso) para o povo sem revolução socialista. E revolução não se faz sem mudar a classe social que está no poder, de modo que burguesia industrial desenvolvimentista nunca frequentou o léxico brizolista. Edmundo Moniz, prefaciado por Nelson Werneck Sodré, filmado por Glauber Rocha, sublinhou a originalidade histórica de cada revolução, e não ficou adstrito à preocupação bizantina se LeonelBrizola leu ou não O 18 Brumário de Karl Marx.

Nildo Domingos Ouriques terá muito a ganhar assimilando a metodologia histórica de Leonel Brizola. E, para isso, convenhamos, não precisa ser correligionário de Lupi e Manoel Dias.

Depois de morto Leonel Brizola está a vagar no céu do povo e pode se materializar em algum projeto revolucionário. O PTB lhe foi surrupiado pelo general escroque Golbery em conluio com Ivete Vargas. Aí teve o líder gaúcho que dar nó em pingo d’água e criar o PDT sem base operária e com uma pequena burguesia descolarizada.

O argentino Jorge Abelardo Ramos, adolescente em Buenos Aires, chegou à concepção bolivariana da Pátria Grande com as ideias de Trotsky e de Manuel Ugarte. Considerou Leonel Brizola tão revolucionário quanto Che Guevara. É reacionário supor que haja burguesia desenvolvimentista. A Fiesp em 1964 derrubou João Goulart, segundo Gunder Frank. O papel da Fiesp foi relevante tal qual as Agulhas Negras.

Escândalo gnosiológico é afirmar que o “colonialismo mental” é quem engendra o subdesenvolvimento, segundo rezam os antimarxismos de Ciro e Mangaba. O que existe desde o século XVI é o colonialismo como realidade econômica. O colonialismo é um sistema. Destarte, é intrigante essa ênfase no “colonialismo mental” porque desde o seu livro A Alternativa Transformadora de Mangabeira inexiste a rapina na América Latina. A rapina imperialista é progressiva.

Quanto vale a Vale do Rio Doce? Era a pergunta dolorosa do geólogo Marcelo Guimarães. A Vale é que nem a mãe, não tem preço, a mãe não tem valor de troca.

Marcelo Guimarães na década de 60 cunhou a frase “minério não dá duas safras”. Governador que manejou o executivo, Ciro Gomes carece de tomar conhecimento da brasiliana brizolista, que começa com o poeta Gregório de Matos, passa por José Bonifácio, Lima Barreto, Edmund Moniz, Glauber Rocha, culminando com a escola da biomassa de Bautista Vidal.

O currículo “professor de Harvard” é um arabesco colonial que integra o idioma javanês, como dizia o escritor Lima Barreto. É colonial o tesão de Ciro Gomes pela sabença de Harvard.

O embaixador Lincoln Gordon de abjeta memória era professor de Harvard. Mangabeira em seus livros não cita nenhum autor ou militante brizolista, Paulo Schilling, Joel Rufino dos Santos, Berta Ribeiro, Zé Kéti, Arnaldo Mourthé, Oscar Niemayer, Vera Malaguti. O desprezo pelos intelectuais nativos é o reflexo de seu complexo metropolitano de superioridade.

O desenvolvimentismo manufaturado por Ciro Gomes origina-se no pacote tecnológico alienado da CEPAL.  Simon Bolívar ou Monroe? O desenvolvimentismo requentado prefere Monroe e acaba por defender o crime colonial que extirpou a população indígena. Essa atrocidade metropolitana não é diferente do capitalismo videofinanceiro, rentista e imperialista, que recapitula a ocupação colonial.

Matar índio e importar escravo – este é o ponto de partida do empreendedorismo colonial. Mangabeira Unger como toda a direita é indiferente ao que havia antes das caravelas de Cabral, onde não havia PIX e currículo Lattes.

Theotônio dos Santos e Vânia Bambina deixaram claro que o desenvolvimentismo quer modernizar o país sem autonomia nacional.

Paulo Guedes não despencou do céu.

Eu não tenho birra pessoal com Mangabeira Unger, talvez até tenha de ajoelhar-me ao milho por ter nele votado para deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro. Leonel Brizola o apoiou e nós, devotos militantes, fomos na onda. Erramos.

A mim me passou despercebido que o guru de Ciro Gomes fazia plagiato de Gunder Frank, substituindo-o com terminologia astuciosa (sem citá-lo) por Jacques Lambert, o sociólogo francês pelo qual Florestan Fernandes morria de amores com a teoria do dualismo sobre o atraso.

Gunder Frank foi sabotado e apagado pelo panteão petucano da USP e PUC carioca, assim como tiraram o brinquedo das mãos do professor Álvaro Vieira Pinto, o grande filósofo hegeliano e marxista.

O PDT, não o de Arnaldo Mourthé, colocou pá de cal na contribuição de Bautista Vidal que mostrou na área da energia os laços entre as perdas internacionais e a apropriação colonial do sol e da água doce.

Eu admiro a coragem física de Ciro Gomes, mas isso não basta para fazê-lo um patriota brizolista e quebrar o pêndulo petucano.

É nítido o recado de Nildo Domingos: com Mangabeira empaca o processo revolucionário. Deste mato, tal qual aconteceu com Celso Furtado, coelho não sai. Aos jovens militantes brizolistas aconselhamos a leitura do magnífico livro de Álvaro Vieira Pinto Por Que os Ricos não Fazem Greve? O desenvolvimento desenvolvimentista só desenvolve o desenvolvido. Jotaká continua sendo a Virgem Maria da economia política do automóvel.

Provavelmente Ciro e Mangabeira não irão responder à crítica de Nildo Domingos Ouriques, um pobretón pé de chinelo from Joaçaba. Enganam-se os que separam na biografia de Leonel Brizola o trabalhismo do marxismo. Daí é quem vem a conversa de urubu com bode sobre a “nova burguesia”. Há capitalismo bom e há capitalismo ruim então há “lucros honestos”, Karl Marx ironizou. O que são lucros desonestos?

O abuelo Otávio Mangabeira, que foi anti-getulista e prototucano, defendeu a simetria de interesse Brasil-EUA. Nosso Roberto Requião comete o mesmo equívoco de gostar mais de Roosevelt que de Vargas. Ex-partícipe dos governos Lula e Dilma, assoprou Mangabeira novidades para o presidenciável Ciro Gomes fascinado pela “turma do diploma”, a consagração ornamental do saber, ironizava Leonel Brizola.

Em 1990, vindo dos EUA, sem deixar de continuar morando por lá, Mangabeira Unger candidatou-se a deputado federal no Rio de Janeiro. Ninguém o conhecia. Durou seis meses sua campanha. Os militantes do PDT, atônitos com a chegada da nova estrela, perguntavam como e por que ele tinha caído nas graças de Leonel Brizola. Ninguém até hoje respondeu.

Afinal, quem bancou a candidatura a deputado de Mangabeira Unger? Rolava a fofoca que era amiguinho do banqueiro dandy Daniel Dantas, a “alma-moeda” que mistura hipocrisia e cinismo, no dizer de Karl Marx. O Daniel Dantas foi lançado pelo dendê de Antônio Carlos Magalhães para o cuidar dos bancos na Bahia.

Ciro Gomes foi para Harvard, aprendeu inglês e de lá voltou com a abstrata noção de “colonialismo mental” que disjunta colônia de capitalismo, o que corresponde ao sinuoso percurso de Mangabeira desde 1990, agora no regaço de um PDT que não está nem aí para a dominação imperialista. A “perdas internacionais”, a que se referia Leonel Brizola, é visto como uma furada leninista que não rende voto na Ilha da Maré.

Mangabeira requenta a marmita do “desenvolvimentismo”, todavia essa marmitex não é para ser aquecida, simplesmente por não haver classe social a fim de aquecê-la, daí a retórica de se criar uma nova burguesia da teologia da prosperidade. Parece que todos os caminhos empreendedoristas levam ao templo de Salomão ou à Academia Brasileira de Letras.

Nildo Domingos Ouriques é discípulo de Ruy Mauro Marini, o teórico da Polop e crítico do desenvolvimentismo, o qual já era um cadáver na época de Jotaká. Afinal, que burguesia que não se pinta a si mesma como desenvolvimentista?

Em política, dizia Leon Trotsky, é vital dar nome aos bois. Dar o nome correto. Nildo Ouriques fala em “liberalismo de esquerda” e “liberalismo de direita”. Em ambos os casos oculta-se a dependência e justifica a “burguesia comparadora” do PT, a burguesia bibelô da China.

Ciro Gomes é entusiasta da socialdemocracia europeia que vampirizou o marxismo. Mangabeira Unger, a Carmem Miranda de Caetano Veloso, é resignado diante da inconclusa soberania do país, portanto nada tem a ver com o ideário trabalhista desde a Campanha da Legalidade de 1961.

Os herdeiros da UDN fazem pouquíssimas referências ao golpe de 64, a grande tragédia da nossa história segundo Glauber Rocha, que abominava a pusilanimidade política de Tancredo Neves.

Pouca gente sabe que Leonel Brizola queria prender Tancredo Neves em um hotel cinco estrelas em Porto Alegre para não atrapalhar João Goulart em 1961. Fato é que atrapalhou com a formula do parlamentarismo, a antessala do golpe de 64.

João Goulart deu ouvidos a Tancredo Neves e aceitou o pacote tucano do parlamentarismo, ao invés de mandar os militares parlamentaristas para o pijamão da reserva.

Tancredo Neves foi o pombo correio da “solução parlamentarista”.

A filantropia do plano cruzado se repetiu com o plano real e com o bolsa família. Os presidentes ineludivelmente são os príncipes do obolo.

Karl Marx abominava a filantropia. Em 1989, na primeira eleição direta depois da ditadura, o PT recusou o acorde Brizula, o hibridismo de Brizola com Lula, simbolicamente o Sol Brizola e Lula a lua. Recusa cretina motivada pela vaidade de Francisco Weffort.

Lula iria pagar um preço altíssimo por rejeitar o convite de Leonel Brizola. Lula aliou-se à rede Globo, Collor venceu, depois veio Itamar e, por fim, FHC. É isso o que se entende por petucanismo: o PT in love com PSDB. É o amor paulistocêntrico de Lula por FHC. Este, professor da USP, foi discípulo de Florestan Fernandes. Leonel Brizola foi estigmatizado de “populista” pela sociologia da USP e IPERJ. E ninguém até hoje sabe o que significa “populismo”, vocábulo que não sai da boca pornô de Steve Bennon.

General que ganhava soldo de multinacional, Goubery se deleitava com a cisão esquizofrênica: Lula, separado de Brizola, era paparicado nas fábricas do ABC. Leonel Brizola pichado de líder anacrônico, representante arcaico da classe operária de chimarrão. Lula embarcou na vaidade política de parecer o que não era. A chapa Brizula foi abortada na história.

Com o seu léxico de beduíno dos pampas Leonel Brizola charlava que Lula popstar havia tomado gosto pela pizza e olvidado a farinha de mandioca.

Brizola já era, entoou Frei Beto, o anti-estética da fome.

O longo exílio de Leonel Brizola foi considerado algo de pouca monta pelos professores nas universidades. Com o tempo o golpe de 64 foi esquecido e recentemente exaltado nos quartéis enviagardos de Jair Bolsonaro. Este foi eleito por uma subcultura de programa de auditório que viu com bons olhos a derrubada de João Goulart. O arreglo petucano é o style telenovela da Globo. Resultado: o judiciário telenovelizado adubou o terreno para Jair Bolsonaro.

A telenovelística de chanchada comoveu Ciro Gomes, assim como Mangabeira foi seduzido por Roliudi. Jair Bolsonaro ajoelha-se diante da bandeira dos EUA a lembrar o beijo udenoentreguista de Otávio Mangabeira dado no anel de Eisenhower. O fio entreguista da história é baixo astral.

Bautista Vidal percebeu que não por acaso a Cepal desenvolvimentista de Raul Prebisch escolheu Celso Furtado e FHC como os gênios da raça. Curiosamente Gunder Frank os desqualificou do ponto de vista conceitual.

Não me lembra a palavra “republicano” figurar na linguagem de Leonel Brizola e de Friedrich Engels. Quem falava em “república democrática” era Stalin. Isso de “espirito republicano” é isca latifundiária “for export”. Os doutos em constituição (a qual não é feita pelo povo) são coniventes com os lucros exportáveis. São os pedantes da linguagem empolada e dos interesses do capital monopolista estrangeiro. O idioma policial “lava-jato” ou “lavajatismo” converte-se em gnose jurídica. Não por acasso Ulisses Guimarães, o bacharel de Cananéia da Constituinte, costeou o alambrado em 1964.

A plêiade do PDT atual acha que Leonel Brizola fracassou porque brigou com a TV Globo. Deu murro em ponta de faca. Um neurótico masoquista. A decadência vital da esquerda explica a desistência de Dilma em não querer lutar, ou seja, o seu desejo inconfesso de ser derrubada. Entregar o time sem resistir. Leucemia política. É isso o que Leonel Brizola não suportava, Glauber Rocha também. Em conversa com os amigos retornava sempre ao assunto: Getúlio Vargas não deveria ter dado um tiro no coração, Jango deixou as portas do Palácio abertas para a Fiesp fazer a festa.

A propósito consinta a analogia: Nildo Ouriques se insurge colérico contra Dilma por não ter reagido ao golpe do falsário Sérgio Moro, o Marlon Brando das foliculárias da Globo Nius.

Em seus dois governos Lula não organizou uma mídia contra-dominante. Confiou na imprensa burguesa e caiu do cavalo. A fraqueza política é um dos traços típicos da alienação colonial. Bautista Vidal adorava a frase de Lampião: se pedir perdão, eu mato.

Ciro Gomes foi o operador e não o formulador do plano real. Ele não se cansa de elogiar esse plano medíocre que teve por objetivo engordar o capital financeiro. Segundo Nildo Ouriques, o plano real transformou alguns professores universitários em banqueiros. Ciro Gomes é cerimonial e respeitoso com FHC, passa-lhe a mão na cabeça cheia de barretes acadêmicas, como dizia Leonel Brizola.

O artigo de Nildo Domingos Ouriques por ser radical, na acepção marxista de tomar as coisas pela raiz, não terá repercussão nas universidades, tampouco será respondido. O que está nele delineado é que de Itamar Franco origina-se o “liberalismo de esquerda”, Ciro, FHC, Ricupero, Plano Real, Lula e Dilma. Leonel Brizola não queria o impitichi de Collor, não por achar o caçador de marajá uma gracinha. É que o PSDB somente chegaria ao poder pela via do golpe branco. A reeleição de FHC liquidou com a Petrobrás.

Itamar Franco, a despeito de sua intenção, é o criador do petucanismo. Recusou o convite para seu vice de Leonel Brizola, preferiu Fernando Collor. O ex-ministro Ciro Gomes contribuiu para a engrenagem rentista do capitalismo vídeo-financeiro.

A classe dominante brasileira só admite a democracia sob a condição de fazer uso da esmola para engambelar o povo na hora de votar.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Salve o economista André Lara Resende apóstata do rentismo ordinário

Imagem: filme Boca de Ouro - Nelson Pereira dos Santos

 É inegável a reverência que o homem brasileiro colonizado tem pelo liberalismo inglês a partir de 1702 com o tratado de Methuen, desdobrando-se na guerra do Paraguai de 1860. 

Solano Lopez até hoje é odiado pela elite letrada e pelas Forças Armadas porque ousou desafiar a dominação da Inglaterra. Que seja lembrado o historiador das Forças Armadas, Gustavo Barroso, o qual será um dos chefes do integralismo e complacente com o imperialismo inglês. 

A revolução de 30 é a clivagem entre o domínio inglês e o domínio norte americano. A crítica de Luiz Carlos Prestes a Getúlio Vargas é que este hesitou entre um e outro. 

Fato é que a partir de 1930 o capital estrangeiro no Brasil é norte americano. Portanto, toda a superestrutura será norte americanizada, o prestígio inglês fica confinado aos venerandos economistas admiradores de Adam Smith e Lord Keynes. 

Os esnobes Eugênio Gudin e Roberto Campos, assim como em seus diluidores tucanos, a exemplo de Pedro Malan e Gustavo Franco; todavia se rendem à evidência da hegemonia do dólar em seus cargos e em sua privacy. Eles não podem deixar de dar adeus à Lombard Street com os seus duques e barões. Trata-se de um adeus melancólico e que ressoa na carioca House of Garças, onde se fofoca que Paulo Guedes é um meteco, sendo mal visto por não ter trato com o alfaiate inglês, não obstante o seu laissez-passer livre-cambista que preside o leilão privatizador. 

A City, o bairro grã-fino de Londres, era por aqui repercutido pela verve literária de José Guilherme Merquior apadrinhado no Itamaraty por Roberto Campos, enquanto Paulo Guedes com Bolsonaro teve que se contentar com o panegírico baixa renda de Olavo de Carvalho e Merval Pereira. 

O "colonial service" vai mudando de fisionomia gástrica e linguística na periferia dependente e rentística. Os sucessores agringalhados do Barón de Mauá não mais usam o garfo e a faca dos hijos de da família Rothschild.


quinta-feira, 6 de abril de 2023

Histórias que o vento não leva


 Foto: Retirada do filme Jango – 1984 de Silvio Tendler

Brizola, Lula, Collor, FHC, Bolsonaro e madame Tebet

O bolsonarismo de reserva é página virada na história. Não terá mais condições de se recompor.

Nascido artificialmente de cima para baixo, é difícil que sobreviva for a do poder.

Melancólico epílogo, sem plateia e sem massa, com medo de ser engaiolado.

Não se esqueçam, no entanto, que para vencê-lo foi necessária uma frente ampla com várias cores e retalhos.

O PT veio ao mundo como frente, dizia Leonel Brizola acerca de seu caráter heteróclito, católicos, sindicalistas, professores, universitários, liberais e marxólogos.

Na vida de Lula há um tempo menor transcorrido na fábrica do que no Palácio, três vezes presidente da República, o que é uma singularidade na história do Brasil.

Deixará o poder com 80 anos de idade e ninguém é capaz de antever com qual sentimento subjetivo e com qual realidade objetiva.

A história é imprevisível. Um Lula aplaudido pelo povo com coragem política ou um líder desfibrado, fraco e pusilânime, ante as exigências da luta de classes.

Vejo-o sob um prisma dúplice em seu relacionamento com o trabalhismo de Leonel Brizola depois do retorno deste do exílio, e na oposição ao neoliberalismo obscurantista de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, indo da prisão à jubilosa vitória eleitoral.

Deixei claro em vários livros, Brizula o Samba da Democracia; Collor a Cocaína dos Pobres; A Jangada do Sul, Depois de Leonel Brizola, que Lula errou em 1989 ao recusar a chapa Brizula contra Fernando Collor. Ao derruir Leonel Brizola ajudou a eleger Fernando Collor. Um infortúnio para o país. Mais tarde Leonel Brizola foi o seu vice em uma chapa derrotada por FHC.

Leonel Brizola errou em ser seu vice. A cabeça da chapa deveria ser Brizula, não Luzola.

O nome Brizula é lindo, soa bem aos ouvidos, parece samba de Nelson Cavaquinho enquanto Luzola, aqui para nós, soa péssimo. A vitória de FHC antecipou a privatização de Paulo Guedes.

Ao recusar a composição Brizula, Lula pisou na bola. Louve-se por ter ele tirado Jair Bolsonaro do poder. Isso, afinal, o redime por ter ajudado Collor a chegar à presidência? Uma mão lava a outra, se bem que como dizia Engels em carta a seu amigo Karl Marx: a luta de classes é profana, então há que julgar os responsáveis por Jair Bolsonaro ter sido eleito presidente da República.

Frente ampla foi uma jogada de Carlos Lacerda depois de 1964. Jango aderiu à Frente Ampla com Jotaká. Leonel Brizola recusou essa aliança com os seus adversários de ontem, ou seja, os golpistas de 64.

É muito difícil governar com Frente Ampla. A classe dominante não opera no vazio. Descortina-se com o horizonte sombrio PT se porventura capitular sem lutar.

O objetivo do fascismo consiste em destruir as organizações operárias, mas estas já estão desmoronadas, incluindo os sindicatos da burguesia. Por mais amistosa e amável que seja a madame Simone Tebet, o consórcio com o pop agrobusiness não é inocente.

Ex-bolsonara, Simone Tebet, a vedete da imprensa pode ser um cavalo de troia no governo Lula.

O caminho já está palmilhado para as próximas eleições: a senadora será a representante da propriedade rural multinacionalizada com o perfume Globo Nius.


A dialética vaselina


 

Foto: Rubens Lopes

Intriga-me, não por dele ser amigo, que Nildo Ouriques escreva sem rebuço sobre o que pensa da atualidade e nada é dito quanto a sua abordagem marxista, discípulo de Ruy Mauro Marini.

O título do artigo "A União dos Democratas" remete à questão da fragilidade da democracia se o bolsonarismo veio para ficar. A vitória eleitoral de Lula não parece de grande significado político e econômico, por conseguinte é deslumbrada a euforia por ter Jair Bolsonaro perdido as eleições.

A política é entendida em sua materialidade de classe com os interesses econômicos e sociais, e não como fato moral de costumes, liberdade sexual, gênero e etc.

Fato é que Nildo Ouriques acerta na crítica ao liberal-petucano, mas erra em relação ao fáscio-bolsonaroide, mencionado como o "indefinido brado pela liberdade", "Bolsonaro clama pela liberdade contra a democracia". Tudo isso soa esquisito na análise do bolsonarismo, mas há acerto quando Nildo Ouriques diz que o germe do bolsonarismo está no rentismo do plano real. Pasolini achava que "consenso" era uma estratégia fascista.

O plano real é a "economia política do rentismo". Nota 10 para Nildo Ouriques. Segue-se a crítica ao Ministro da Defesa sobre a despolitização das Forças Armadas, como se houvesse a possibilidade de haver Forças Armadas sem política. Isso não existe desde o Duque de Caxias. O lance é saber que tipo de política opera as Forças Armadas. O dilema do soldado brasileiro está entre Monroe e Bolivar, o dilema pende para Monroe porque o país é dependente, subdesenvolvido e compra armamento dos países hegemônicos.

O desafio é harmonizar o pobre e democracia, aquilo que Francisco Weffort sublinhava que era meta do PT, então Lula estará sendo compelido a filantropia compensatória, em contraste com o Bolsonaro desapiedado quanto aos pobres e miseráveis. Então, a diferença se insere no plano moral assistencialista e filantrópico.

O sopão envenenado para os despossuídos, é isso o que estava em pauta no governo Bolsonaro. Cito aqui a expressão de Marx "despotismo militar" em correspondência com Engels. "Despotismo militar" significa a supressão de todas as leis, segundo Marx.

O problema do Bolsonarismo é tentar converter as Forças Armadas em seita, a qual faz de tudo para manter-se unida.

Salienta-se a pergunta magistral de Nildo Ouriques: o que é o pobre para o Banco Mundial? Isso lembra Álvaro Vieira Pinto discorrendo sobre os mecanismos que fazem do pobre um submisso, na linha de Fannon, de Glauber, de Darcy Ribeiro quanto a submissão cultural do pobre.

A discussão sobre as armas já foi posta por Glauber Rocha: as armas nas mãos dos famintos. É essa a insurgência do cinema de Glauber Rocha e de sua estética da fome. A estética da fome coloca a seguinte questão: câncer é um faminto matando outro faminto. Justiça social só com armas para os famintos, é isso a sublevação da miséria nos filmes de Glauber Rocha.

Quem integra a classe dominante no período Lula não é diferente da ditadura, e quem exerce o poder político no governo Lula? Marx dizia que a rapacidade é o princípio vital de toda burguesia. Foi assim que Ruy Mauro Marini reagiu à intriga de FHC e José Serra.

Façamos outro Bolsonaro antes que as Forças Armadas o façam. Essa nova aventura forjada pelos discípulos do general Frota parece ser irrepetível. A genealogia da moral Bolsonaro está na mistura de programa de auditório do tipo Faustão e Jô soares com a novela da Regina Duarte e Daniel Filho a vida imita a telenovela.

Do que se trata é a degeneração mental e biológica de uma sociedade miserável, parasitária, rentista e dependente, degeneração interclassista, porque degenera o pobre, degenera o rico e degenera a classe média. Essa é, digamos, a ontologia social do bolsonarismo, para usar a expressão famosa do filósofo György Lukàcs. Ontologia social do bolsonarismo, não apenas as artimanhas da superestrutura de Sergio Moro, Lava Jato, petucanismo, Agulhas Negras e Judiciário. Por ontologia social. Entende-se tessitura das relações que gerou o bolsonarismo.

O berço melancólico do bolsonarismo é o Rio de Janeiro que matou a letra dos Cieps, com a vitória da telenovela e do roque in ril. Daí o seu obscurantismo, daí o seu ódio intelectual, daí o seu ódio à biblioteca. A family bolsonara é uma invenção de telenovela pós 64 gerenciada por Roberto Campos e Paulo Guedes.Resta saber, depois da contribuição crítica de Nildo Ouriques, se o bolsonarismo com ou sem Bolsonaro, é uma histórica necessidade da burguesia rentista, cafajeste, cínica, compradora e desterritorializada.

A degradação biológica da maternidade é um dos aspectos da ontologia social bolsonara. Secou o peito da mãe junto com as florestas derrubadas e queimadas.

domingo, 2 de abril de 2023

Comissário Flávio Dino


O desafio cívico de se insurgir contra o dízimo evangélico pode converter Flávio Dino em um comissário do povo. Começar por cobrar imposto das igrejas, inclusive sobre a manipulação mental que os bispos exercem sobre o povo. É necessário atacar essas igrejas que tanto mal fazem ao povo trabalhador. Este é o tema do comentário de Gilberto Felisberto Vasconcellos no Programa da Rádio Comunitária Campeche, apresentado por Elaine Tavares. (01.04.2023)

terça-feira, 21 de março de 2023

A vaca louca de São Paulo


O casamento entre a água e o sol faz do Brasil um epicentro energético. E agora São Paulo aparece como um espaço onde a água será privatizada. Nada de novo, o nazifascismo é privatista. Bautista Vidal já mostrou que a privatização é a internacionalização do patrimônio nacional. Privatizar a água trará de volta um fluxo agudo de doenças tropicais. Porque o lucro estará acima de tudo. Este é o tema do comentário de Gilberto Felisberto Vasconcellos no Programa da Rádio Comunitária Campeche, apresentado por Elaine Tavares. (11.03.2023)

Foto: MAB


Falo para os que querem ouvir


 

Os áudios que gravamos chegam em pouco gente. Mas, isso não importa. os números não dizem nada. Há uma falcatrua nesta loucura por audiência. Lembrem que no enterro de Karl Marx havia pouco mais de 13 pessoas. De que vale chegar à milhões se não se é realmente escutado? Hoje, há milhões sendo manipulados pelas igrejas neopentecostais nos quais não conseguimos chegar com argumentos. Este é o tema do comentário de Gilberto Felisberto Vasconcellos no Programa da Rádio Comunitária Campeche, apresentado por Elaine Tavares. (11.03.2023)


 

sábado, 11 de março de 2023

A comunicação é estratégica


Será que o Lula não pensou na comunicação e na luta de classe? Como é possível um Juscelino não sei das quantas ser o ministro da Comunicação? A situação da comunicação continua a mesma da ditadura de 1964, que foi criada para sustentar aquele governo ilegítimo. Não foi à toa que a Globo criou a cocaína dos pobres, a novela. Sérgio Moro segue sendo o Marlon Brando das e dos jornalistas da Globo. Lula não muda nada. Que masoquismo é esse? Ele continua beijando a Globo na boca. Este é o tema do comentário de Gilberto Felisberto Vasconcellos no Programa da Rádio Campeche, apresentado por Elaine Tavares. (04.03.2023)


Há que fazer forte o governo


 Bolsonaro não é pesadelo. Porque do pesadelo a gente acorda e o Bolsonaro ainda persiste. A vitória nas urnas não basta. E é por isso que a crítica não pode baixar a guarda. Vacilou, o cachimbo cai. Lula está devagar, dando sinais de impotência. A conciliação não pode ser o caminho. O fraco rei faz fraca a forte gente.  Áudio divulgado no Programa Campo de Peixe, conduzido pela jornalista  Elaine Tavares, na Rádio Comunitária Campeche. (25.02.2023)