quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A necessária revisão histórica: sem o midiólogo João Carlos Guaragna não haveria Campanha da Legalidade em 1961



O presidente Jânio Quadros manteve relações comerciais com os países socialistas, se aproximou de Cuba, condecorou Che Guevara e fez o pacto de Uruguaiana com o presidente da Argentina Arturo Frondizi. Juntos Argentina e Brasil para pôr fim à rivalidade entre os dois países, rivalidade fomentada pelo imperialismo inglês e norte-americano.

O tratado de Uruguaiana pode ser visto como um prenúncio do Mercosul.

Os historiadores argentinos e uruguaios assinalam que esse tratado foi concebido por Leonel Brizola quando governador do Rio Grande do Sul. Esse é um fato pouco lembrado na história do Brasil. Em Punta Del Leste, dentre os conferencistas de vários países latino-americanos, estiveram presentes Che Guevara e Leonel Brizola.

Eu coloquei em meu livro, Depois de Leonel Brizola, uma bela foto dos dois. Leonel Brizola tinha boa relação com Jânio Quadros, inclusive o jornalista Castelo Branco relata que quando da renúncia de Jânio, Leonel Brizola não acreditou nisso. Ele achava que havia sido um golpe obrigando Jânio Quadros a abandonar o poder. Só depois (Jânio saindo de Brasília rumo ao aeroporto de Cumbica), é que Brizola conseguiu falar com o assessor de Jânio Quadros que confirmou a renúncia.

Leonel Brizola achava que o tratado de Uruguaiana estava na origem dos transtornos de Jânio com o imperialismo norte-americano, pois esse tratado retomava a aliança Vargas/Perón.  Diante desse antecedente histórico, Leonel Brizola pensou que talvez Jânio não tivesse renunciado, mas pressionado pelo imperialismo americano por causa do tratado de Uruguaiana que uniria Argentina e Brasil, e que seria uma maneira de estabelecer a unidade latino-americana. Unidade bolivariana, diria Hugo Chávez.

Com a renúncia de Jânio Quadros, começou a conspiração entre determinados setores das Forças Armadas. Os três ministros militares começaram a conspirar. João Goulart estava na China de Mao-Tse-Tung. Esses militares colocaram o veto: Jango não poderia tomar posse porque, alçado à presidência da república, iria retomar o nacionalismo getuliano. Os militares alegavam que Jango era comunista e haveria uma conturbação no país se ele viesse a ser presidente da República.

O veto foi captado em Porto Alegre pelo telegrafista João Carlos Guaragna que comunicou a notícia para Leonel Brizola. O bom e velho Guaragna tinha ouvido arguto porque, guri pobre vendedor de balas e doces no Teatro São Pedro, aprendeu a assoviar óperas de Giuseppe Verdi.

João Carlos Garagna era adorado por dona Neusa Goulart que lhe ofereceu uma viagem para conhecer a Itália. Meu amigo Beto Almeida, o jornalista da biomassa tropical, precisa tomar ciência dos horrores históricos que Guaragna fala sobre Tancredo Neves durante a Campanha da Legalidade.

O governador do Rio Grande do Sul tomou a atitude ousada: os militares golpistas querem ferir a constituição porque ela coloca claramente que uma vez o Presidente renunciando, o direito inalienável é o vice tomar posse. Então, dizia o governador, João Goulart vai tomar posse, e para isso nós vamos organizar a população para numa eventual intervenção federal no Rio Grande do Sul. Leonel Brizola no palácio do Piratini distribuiu armas para a população a fim de garantir a posse de João Goulart. Isso tudo graças à mediação midiológica de João Carlos Guaragna que escreveu um grande livro sobre Leonel Brizola em seu exílio no Uruguai.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

EdirJair - pesadelo evangelical gun


A palavra falada. Disk descarrego e dá um cheque para o subproletariado.

Malandragem é dizer aquilo que não faz e fazer aquilo que não diz.

O crédito pressupõe que o bom homem seja aquele que paga. Ai está o julgamento sobre a moralidade de um homem. Um homem rico dá crédito a um homem pobre supondo que este irá pagá-lo porque é um homem decente, e não um pária que não merece confiança.

O que o crente preza é a fé, a fidúcia, a quem ou de quem se fia. Crédito origina-se da palavra crer. O instituto de crédito por excelência é o banco. Qual a diferença da igreja evangélica para o banco?

O credo do crente é menos Deus que o dinheiro.

Pier Paolo Pasolini advertiu o Vaticano na década de 60: das três virtudes teologais a melhor é a caridade, não é a fé nem a esperança.

A frase é de São Paulo: “a caridade é melhor que a fé e a esperança”. Nazismo era fé e esperança, não caridade. A caridade foi substituída pelo crédito. Eis o trinômio: crédito, fé e esperança.

São Paulo fundou uma igreja, não uma religião; fundou uma instituição, não uma mística. Organização clerical. Nada pior que um fundador de igreja.

Pasolini retratou São Paulo como um esquizofrênico, um neurótico submetido à dualidade: santo e padre, gênio e corrupto.

Quanto mais miséria, mais igrejas.

A expansão evangélica corresponde ao caráter rentista e especulativo do capitalismo monopolista. O evangélico começou na cidade, não é um fenômeno camponês.

A analogia entre cristo e moeda é evidenciada pelo catolicismo (a hierarquia fundada em Deus, Cristo, santo, sacerdote), mas na igreja evangélica essa analogia é rompida com o absoluto primado monetário.

Cristo (mais este que Deus) converte-se em puro valor de troca, ou seja, a fé é dinheiro. Todo fundador de igreja, seja qual for, revive o São Paulo gestor, burocrata e empreendedor.

Loucura é insistir na disjuntiva crer ou não crer. A caridade está longe de ser uma virtude para os evangélicos. Ajudar o outro choca com o caráter egóico da esperança em salvar-se pelo dinheiro.

O aroma evangélico medra do dízimo, a velocidade inicial do capital rentista. Junta-se na mesma pessoa o barão da mídia e o Bishop em cuja personalidade o masoquismo está amalgamado com a crueldade.

Não esqueçam de Robespierre: “a liberdade de imprensa não pode ser permitida se comprometer a liberdade pública”.

Edir Macedo gosta de sublinhar o caráter sanguinário e bélico da bíblia. Não é disparate a hipótese. Edir & Jair – a chapa evangelical gun.

Para existir o fascismo gospel videofinanceiro é preciso que seja eliminada a auto-defesa dos trabalhadores.

Quando se abre uma igreja, bye-bye religião. Cada crente tem o seu Deus. É o Deus dele que não tem nada a ver com o meu. Então, o Deus é meu, pertence a mim, é minha propriedade privada. Deus é meu.

Não é Deus nosso, é Deus meu.

A igreja Universal do Reino de Deus é entusiasta de Israel sionista.

O desejo recôndito da filantropia à Rockefeller é matar todos os pobres. Estes são responsáveis pela pobreza.

O banco é o areópago da nação. Areópago era o Supremo Tribunal Federal em Atenas.
Frederico Engels: “inferno é não ganhar dinheiro”. O comércio é uma fraude legalizada. A fraternidade dos ladrões. Todo julgamento é político porque toda lei em sua origem é política. Juiz imparcial é mistificação.

Cabeça de juiz, diz o povo, é que nem coice de mula, ninguém sabe para onde vai.

Os preceitos da Constituição são sagrados, mas a constituição não é feita pelo povo.

Justiça é dinheiro: domínio do patriciado. Nepotismo de pai para filho. De avô para neto.

O judiciário reverencia os homens de haveres.

É falsa a idéia sobre a politização do judiciário. O que existe hoje de escandaloso é a telenovelização do judiciário.

Record e Globo disputam a audiência. “Tudo por dinheiro”, aforismou Silvio Santos. A TV esconde que o destino do trabalhador é trabalhar para empobrecer. Todas as TVs fazem “o comércio do dinheiro”.

Os clérigos e os magistrados usam palavras pomposas e pensamentos miseráveis. A cadeia é considerada como a casa da correção moral. Desde Caim, dizia Marx, a punição não melhorou nem intimidou o mundo.

O espírito escolástico domina os jesuítas e os bacharéis. O espírito burocrático é jesuítico teológico. Todo mundo quer ser rentista. Herdar, não trabalhar. Vender ideia. Ideia vendável. Ideia vendível.

Edir é o nosso Murdoch colocando a Rede Globo para correr. Ele tem igreja, TV e militância. 24 horas de política por dia.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Duas ou quatro observações sobre o memorial do professor Nildo Ouriques



Texto de Gilberto Felisberto Vasconcelos, sobre o memorial do professor Nildo Ouriques, apresentado para a defesa do cargo de professor titular.  Gilberto fez parte da banca.

Na maioria das vezes a narrativa em primeira pessoa, nos textos de um economista, é um tédio a leitura ou senão indício de trapaça existencial, quando não juntas as duas coisas. Permitam-me aqui afirmar, em alto e bom som, que estamos com Nildo Ouriques perante uma exceção, pois ele é o único economista no Brasil que não escreve mal. Acrescente-se que não considera a linguagem uma vestimenta da ideia, e sim a ideia como expressão linguística, à semelhança daquilo que escreveu o poeta Ludovico Silva sobre o estilo de Karl Marx comparando a Beethoven.

A guinada estilística, digamos assim, é observável no momento em que escreveu no hospital o seu manual de doente aprendiz. Eis aí Nildo Ouriques a construir seu estilo, o que não é nada fácil. Sabemos que isso pressupõe a existência do homem; afinal, o estilo é o homem. Vejo que se delineia um estilo nesse memorial que esperemos não seja o último degrau no pensamento e na carreira desse notável professor, que ama como ninguém a universidade.

E que estilo é esse? Trata-se, a meu juízo, de um estilo apodíctico, sem papas na língua, direto, peremptório, resoluto, baseado no verbo de ligação, é não é, e por aí vai evocando as ideias, as pessoas, os acontecimentos.  Não é descabido considerar que esse estilo seja expressão da luta de classes, conceito onipresente em sua prosa, que é avessa aos paninhos quente conchavados nas trapaças conciliativas da classe dominante.

Reparem quão freqüentes são revelados no memorial, as rupturas, a mudanças de caminho, as pelejas dentro e fora da universidade.

Todavia injusto tê-lo como um brigão, um criador de caso; melhor e mais justo é analisá-lo sob o prisma militante de quem ficou afeiçoado, desde cedo, ao tema da biblioteca e da cultura. 
Somos informados da origem proletária de sua família: pai cobrador de ônibus; mãe operária da indústria alimentícia, depois de trabalhar em pequenos frigoríficos. Vários historiadores gaúchos apontaram a contradição entre os produtores de gados e os donos dos frigoríficos estrangeiros na origem do nacionalismo trabalhista. Não posso deixar de mencionar que nesse memorial Nildo Ouriques, interessado em juntar marxismo com nacionalismo, tece elogios ao papel revolucionário de Leonel Brizola, na razão inversa sobre a atuação de Lula na história no Brasil no tocante ao sindicato e à classe operária.

O relevo dado ao intelectual, que está entre a revolução e a prostituição, é uma constância em quem quer transformar o mundo, como figura em uma das teses sobre Feuerbach de Karl Marx e que serve de epígrafe ao memorial. No México Nildo Ouriques escreveu  dissertação de mestrado orientada pelo equatoriano Agustín Cueva, sociólogo que não por acaso estudou o avacalhamento pós-moderno da intelectualidade na América Latina.

Reputo um lance bastante afortunado ter Nildo Ouriques ingressado como professor na Universidade Federal de Santa Catarina aos 37 anos, depois de algumas andanças pela América Latina, trabalhando como colaborador de alguns jornais estrangeiros e tendo trabalhado em rádio para descolar a sobrevivência.

Há em sua personalidade um traço de gentileza com seus amigos, sem que nos esqueçamos os amigos próximos que tem sido generosos para com ele, como Elaine Tavares e Waldir Rampinelli.

Eu confesso, inteirando-me de sua estada no México privando com intelectuais de alto coturno, que senti uma nesga de inveja por ter ele convivido com tanta gente boa, o que contribuiu para torná-lo um exímio conhecedor da América Latina, não só entre sua geração como de gerações vindouras. Seguramente foi isso que o diferenciou no meio dos economistas, colocando-o no mesmo patamar do saudoso Teotônio dos Santos, o grande amigo de Rui Mauro Marini, o totem marxista cultuado por Nildo Ouriques. Este chegou a ganhar uma áspera crítica de Rui Mauro Marini por ter escrito um artigo ruim. Nildo Ouriques conta isso não em clima de humor e gozação, antes sublinha a sincera relação que deve nortear os intelectuais, sobretudo os mestres e os discípulos. A propósito dos muitos intelectuais que influenciaram sua formação bolivariana, vale aqui salientar que essa conversa interferiu no seu jeito de escrever sobre economia e ciências sociais, o que é raríssimo de acontecer entre os seus pares que, na maioria das vezes, são moucos e avessos às coisas que o povo diz. Nildo Ouriques escreve não para os economistas, ele escreve para os leitores não especializados, daí comprazer-se em citar Ortega y Gasset para quem o especialista é um bárbaro vertical.

A oralidade que medra na escrita de Nildo Ouriques leva-me a conjecturar que a economia, ciência da riqueza, não se acha na mentalidade popular, conforme mostrou Luís da Câmara Cascudo no tocante ao desdém do homem do povo pelo armazenamento de víveres e a negligência pelo dia de amanhã. O amanhã é outro dia, o amanhã a Deus pertence, atitude que está tão arraigada na psicologia dos trópicos, segundo o médico Silva Melo.

O curioso é que a diáspora latino-americana de Nildo Ouriques, que o fez desprovincianizar-se não só de Santa Catarina como dos vários brasis, não foi ensejada pelo golpe de 64 como acontecera com alguns intelectuais trabalhistas e marxistas, a exemplo de Paulo Schilling, Edmundo Moniz, Álvaro Vieira Pinto e Darcy Ribeiro, sem que se deixe de mencionar o caudilho Leonel Brizola.

Releva dizer que Nildo Ouriques é um intelectual aves-rara cada vez mais nas universidades de perfil xopicenter, porque ele leva a sério a função pública do intelectual que, como dizia Jean Paul Sartre, é aquele que mete o bedelho em todos os assuntos da tribo. Se não fosse exorbitar-me na analogia histórica, diria que Nildo Ouriques é um remanescente da POLOP contra o pop que venceu, o Brasil pop vencedor como repetia o sociólogo FHC em suas campanhas eleitorais de triste memória.

O memorial é um gênero (lembra o diplomata Aires em Machado de Assis) que pega o passado e tende a imobilizar o presente, mas no caso de Nildo Ouriques há sempre um decurso que está permanentemente em andamento – um work in progress – tal qual a pesquisa anunciada por ele sobre o rentismo que integra o rentismo videofinanceiro nas áreas dependentes.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A Jangada do Sul



O livro "A Jangada do Sul" foi editado pela Casa Amarela em 2005 e fala sobre os três políticos gaúchos que mudaram a face do país.  Nesse trabalho, Gilberto Felisberto Vasconcelos defende a ideia de que a descolonização política a favor da soberania nacional começa com a revolução de 1930, com Getúlio, e é interrompida em 1964 com o golpe cívico/militar. O título faz referência aos três políticos gaúchos que deram concretude a essa descolonização: Getúlio, Jango e Brizola.

"A Jangada do Sul foi perseguida por um destino trágico na história do Brasil, sendo derrotada três vezes num lapso de tempo de mais ou menos uns dez anos: em 1945, com a deposição de Vargas pelos EUA; em 1954, pelo suicídio de Vargas em resposta ao cerco norte-americano; em 1964, por um golpe de Estado que começou em Washington para derrubar o presidente João Goulart, sem dúvida o acontecimento mais estúpido e nocivo para a civilização brasileira. Vietnã sem sangue, o golpe de 1964 foi concebido e materializado para eliminar o verdadeiro adversário do imperialismo: Leonel Brizola. Que teve um exílio barra-pesada. Exílio de cão".

O livro está esgotado, por isso oferecemos aqui a versão em pdf. Esse é um importante momento para reler essa obra.

Acesse aqui

terça-feira, 18 de junho de 2019

Antropofagia e Comida Multinacional



Quando os índios já estavam estropiados, muitos em processo de serem extintos, Oswald de Andrade sintetizou na antropofagia o que pensava do Brasil. Intitulou seu pensamento de antropofágico, apegando-se a esse batismo até morrer. Oswald de Andrade deu-lhe a acepção ritualística: ritual celebrado para se fortalecer com as virtudes do inimigo morto e derrotado. Quando o Brasil amanhecia entre os índios, não havia fome e, na verdade, a maior parte das tribos indígenas não tinha o hábito antropofágico. Isso não era algo sistêmico, mas Oswald de Andrade manejou a palavra antropofágica contra a evidência etnológica para realçar o exemplo de oposição, de resistência, designando com isso a atitude de não passividade do aborígene diante da invasão colonial. Existe como símbolo nessa escolha uma dupla referência: a fraqueza do homem catequizado e a denúncia psicológica sobre o câncer colonial, mais ou menos o que Glauber Rocha em meados da década de 60 fez com Lampião diante do homem fraco: “Se pedir perdão, eu mato.”

Equívoco de interpretação, tanto aqui quanto fora do Brasil, é identificar antropofagia com canibalismo. É um erro traduzir para o francês e inglês a palavra antropofagia por canibalismo. Darcy Ribeiro em A Utopia Selvagem esclareceu a semântica de canibalismo como uma armadilha colonialista, que não tem mais nada a ver com o texto de Montaigne, escrito a partir de seu encontro no século XVI com os três índios tupinambás na França. Montaigne foi lido por Oswald de Andrade na São Paulo da década de 20. Eis o que escreveu Darcy Ribeiro: “Quanto aos canibais, vamos devagar. A palavra vem da expressão Caribe, que era o nome gentílico dos pobres selvagens com que o descobridor topou em 1492 nas ilhas idílicas.” Este descobridor “andou difundindo rumores de que entre eles viveriam gentes de um olho só, com focinhos de cão, comedores de carne humana. Caribe vira Cariba, Caniba e Canibal.” É isso o que Montaigne viu em 1580, assim como Shakespeare em 1612. Canibal deu em calibã. Este “nosso avô se fode”, canibal, calibã, ao ganhar voz e civilização. Próspero o considera monstrengo, depois de roubar-lhe a ilha. Richard More não fez por aqui a revolução psíquica à Roger Bastide, paparicado pelas mães de santo no candomblé.

Em 1754 Ruçô de Genebra embarca na fama dos canibais, “proclama a bondade inata dos selvagens, funda nela a moderna pedagogia e a política científica”, segundo Darcy Ribeiro que cita Oswald de Andrade: o comunismo catiti. “Comemos com Oswald nosso repasto mais sério e severo da assunção do nosso ser, diante da estrangeirada”, sublinhou.

O legado marxista de Oswald de Andrade está na Antropologia das Civilizações de Darcy Ribeiro. Destarte, Oswald de Andrade iria aplaudir os Brizolões como a materialização pedagógica do matriarcado de Pindorama. A retomada estética de Oswald, feita durante a década de 60, desmarxixou a antropofagia. A verdade é que na visão antropofágica do mundo a dialética materialista é fundamental. Marx e Engels são citados tanto quanto Freud e Nietzsche.

E os estamentos e os executivos das multinacionais? Mas vamos ficar com a carne, com o cheiro, com o excremento do que é comido? Vamos por o FMI no tempero da nossa feijoada? O problema é que a boca banguela do povo mestiço não é a boca cheia de dentes dos índios Caetés que comeram o bispo Sardinha no século XVI. E então, vamos comer o FMI e o Banco Mundial resignando-se diante da dificuldade ou da impossibilidade de eliminá-los?


Revista Caros Amigos
Ano XIII número 145, abril de 2009
Página 10: “Gilberto Felisberto Vasconcellos mostra as armadilhas do colonialismo”
Compilação: Matheus Rosa

terça-feira, 11 de junho de 2019

O inevitável desacorde entre os militares da ativa e os da reserva a propósito do Bolsovendepátria



A angústia e a perplexidade diante da calamidade social e do desastroso governo Bolsonaro não devem nos afastar da explicação racional do fenômeno. E ir em busca da explicação histórica não é uma tarefa nada fácil.

O presidente da República é ex-capitão, mas a fonte do poder não é necessariamente militar, ainda que haja militares ocupando cargos na administração.

A ditadura multinacional de 64 venceu, venceu já no exato momento em que foi deflagrado o golpe branco.

Segundo Sylvio Massa, que estudou nas Agulhas Negras, piloto e matemático, autor do estupendo livro Marx e a Matemática, sabedor dos meandros das Forças Armadas, existe uma clivagem a demarcar os militares da ativa e os da reserva. Estes, desnacionalizados e desinformados da história militar do país, aparecem em primeiro plano, a exemplo de Mourão, Heleno, Vilas-Boas e o general que leva o beatíssimo nome de Santos Cruz. Todos eles foram para o Haiti na chamada “ajuda humanitária”, enviados por Lula e Dilma a pedido da ONU. O então ministro da Defesa era o diplomata e cinéfilo Celso Amorim.

Tomaram-se de raiva contra Lula e Dilma, e pediram a cabeça desta sem escrúpulo. O motivo seria a corrupção, mas a corrupção nunca é o verdadeiro motivo. Apoiaram entusiasmados o candidato Jair Bolsonaro. Há dúvida se brigaram com o PT e deram apoio ao capitão ou se antes aderiram ao Bolsonaro.

Houve um lance teatral com a candidata nevrosíaca Janaína Pascoal para vice. Um faz de conta. Candidata de araque, pois o general Hamilton Mourão já estava na parada.

Não foi por acaso que o general Nelson Werneck Sodré, injuriado com seus coleguinhas golpistas, escreveu sobre o regime de 64 um livro intitulado O Governo Militar Secreto.

O espectro ou o expediente bolsonaro foi gerado no Haiti com a participação da CIA. Esse conclave deu resultado eficaz porque ele foi alçado a Presidente da República pelo voto popular com episódios roliudianos como a facada fake no Parque Halfeld de Juiz de Fora, possivelmente supervisionada pelo Richelieur escatológico da Virgínia.

Com o sumiço público do candidato a comunicação foi diferida como discurso indireto. O candidato não apareceu de carne e osso, sempre indiretamente aludido através de mensagens cyberzaps enganadoras.

A manipulação funcionou junto com a providencial facada, porque sem esta a mensagem cyberzap não teria eficácia. Então não foi pela comunicação em si que se deu a proeza eleitoral. Se tudo no ex-capitão é fake, por que não será fake também a facada? Remember o fictício tiro no pé de Carlos Lacerda na rua Toneleiro em 1954 para derrubar Getúlio Vargas.

Diante do petucanismo politicamente corrompido o cowboy caipira se posicionou agressivamente, dando uma de valente contra tudo e contra todos. A valentia, como mostra a literatura de cordel, é uma virtude curtida pelo povo. O Corisco só se entrega à morte com parabelo na mão.

O desenvolvimentista Ciro Gomes não foi incisivo contra o imperialismo norte-americano, ao contrário do PDT à época de Leonel Brizola que se opunha às perdas internacionais como a causa principal de nossos males. Ao candidato Fernando Haddad que escreveu tese jurídica sobre Marx e Habermas faltou-lhe “raiva analítica”, como dizia Pier Paolo Pasolini.

De Sarney em diante as Forças Armadas estiveram na moita. Não se ouvia falar nada dos militares, apenas ouviam-se rumores que eles estavam abespinhados com o comando civil das Forças Armadas.

Eis que de súbito no cenário eleitoral surgiram os militares “pacificadores” do Haiti. Vexame para os países latino-americanos e para as Forças Armadas brasileiras. Na verdade foi uma operação desumanitária. O mesmo pode acontecer com a “ajuda” de Trump intervindo na Venezuela sob a conivência de Bernie Sanders, que francamente não pode ser comparado a Leonel Brizola.

Sanders é progressista dentro dos Estados Unidos mas fora é anti-Bolívar, ou seja, a favor da hegemonia norte americana. Enfim, em termos de justiça social, Sanders é um esquizofrênico: por fora pão bolorento, por dentro bela viola.

Os militares que foram para o piquiniqui no Haiti exibem uma característica em comum: o anti-bolivarianismo. Em outras palavras, são pró-Santander e contra Simón Bolívar. Militares alinhados à política bélica, econômica e cultural dos Estados Unidos. Não diferem em nada dos golpistas de 64, todos admiradores do cipaio Silvio Frota.

Sylvio Massa é de opinião que o entreguismo vai ser estancado dentro das Forças Armadas. Isso é uma incógnita, mas seja como for, as Forças Armadas não são um fator que move a história.

O que está subjacente nisso tudo é a educação do militar de Realengo à Academia Militar das Agulhas Negras. O que permanece é o enigma sobre a formação dos militares. O culto da apostila e não o amor aos livros.

Quais são os professores da Academia Militar? Por que as escolas militares no Brasil nunca ensejaram um Hugo Chávez? Mais vale um militar nacionalista defendendo as riquezas naturais do país que um punhado de bacharéis como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves.

É depressiva a notícia de que o Clube Militar teria dado apoio à passeata pró Bolsonaro, o que contraria as supostas divergências entre os membros da oficialidade militar. Essa adesão do Clube Militar evidencia que Bolsonaro possui consenso dentro das Forças Armadas e que não há possibilidade alguma de discordância entre os militares da ativa e da reserva.

Não nos esqueçamos da lição dada por Nelson Werneck Sodré: a base da defesa militar é a arma, mas esta é comprada no exterior. Eis a lição histórica: nem o Exército é tropa de ocupação estrangeira, nem é vanguarda armada do povo. Então é o quê? Fato é que sem a participação das Forças Armadas o país não faz a sua autonomia nacional e sua emancipação popular. Equívoco no entanto é atribuir às Forças Armadas papel histórico vanguardeiro.

Tomara a jovem oficialidade que está na ativa venha a prestar homenagem ao grande soldado marechal Henrique Teixeira Lott, e não se deixe engambelar pela reacionária algaravia de Silvio Frota, que foi o guru liberal do ministro Augusto Heleno, o Napoleão Bonaparte de Jair Bolsonaro.

A assessoria militar de Bolsonaro está menos para Estillac Leal do que para o tosco marechal Odílio Denys. Ficou famosa a frase de Lott: “a Petrobrás é intocável”.

Dirigindo-se aos gringos, Paulo Guedes perde a compostura evocando o seu mestre Roberto Campos: “vamos vender tudo”. Esse é o homem da reforma que é pífia mesmo para a burguesia e para acumulação de capital. Ao que tudo indica, os generais da reserva são coniventes com a gangue miliciana.
O golpe de 64 foi dado com o objetivo de eliminar o caráter nacional das Forças Armadas. Essa sinistra autofagia militar culmina agora com o ex-capitão, que é considerado entre seus pares um péssimo soldado.





domingo, 26 de maio de 2019

Cristo é caminhoneiro, madame


O imperialismo necessita milícias



Inócuo é listar e fazer comentários às asneiras linguísticas e conceituais dos ministros. Há antecedentes ilustres na flora reacionária. Varnhagem, o historiador paulista de Sorocaba, defendia a escravidão dos índios. É sabido o horror que os portugueses colonizadores, os progenitores dos bandeirantes tucanos, tinham da indiada. Duque de Caxias, temente do inferno, era a favor dos índios escravizados e condenava os negros africanos. Eis que parece Roberto Campos mas é o cronista Pero Vaz Gandavo tirando a culpa da classe dominante: “uma das causas por que o Brasil não floresce muito mais é pelos escravos que se levantam e fogem para as suas terras cada dia”.

Que os mariners invadam a Venezuela. O vice Mourão mantém fidelidade ao capitão-mor porque este livrou-lhe do entediante pijama anafrodisíaco e monótono do breviário. Sua alma gaúcha. Dei Gloriam. Sarava às Milícias positivistas de Inácio de Loyola. O general Heleno em seu travesseiro shakespeariano é sobressaltado pela guerra do Paraguay, porquanto ele aprendeu nas Agulhas Negras que o Exército Nacional não poderia tolerar a milícia imobiliária. Os militares do Haiti desdenharam Lott, o soldado patriota, e prestaram tributo ao general entreguista Silvio Frota. A gênese do bolsonarismo está na ocupação militar do Haiti tendo por comandantes Heleno e Mourão.

O abuso desumanitário feito no Haiti assemelha-se ao genocídio da Guerra do Paraguay, na qual se encontra a origem do golpe de 64. Eis a equação: o golpe de 64 está para a guerra da Tríplice Aliança assim como o bolsonarismo está para o Haiti. Mourão e Heleno admiram os generais de Napoleão Bonaparte no Haiti. Estes notabilizaram-se por alimentar os seus cachorros com os corpos dos negros.

A raiva bolsonara contra o Haiti é que Simon Bolívar morou por uns tempos lá e foi amigo de Alejandro Petión, o fundador da República e responsável pelo conceito de “democracia agrária”. Os generais Heleno e Mourão foram ao Haiti enviados por Lula e Dilma a pedido da ONU.

Não acredito que seja infundado o cotejo entre a Guerra do Paraguay e o Haiti. Mourão e Heleno pertencem à filiação do general Santander, bacharel em leis, “esse Mitre bogotano”, segundo Jorge Abelardo Ramos, o historiador marxista do Exército argentino. Santander foi considerado um amigo da oligarquia e dos ianques, fazedor de negócios e um liberal mau caráter.

Heleno e Mourão amaldiçoaram o chavista Simon Bolívar e teceram panegíricos obcenos ao Santander do Trump. Será obra do acaso que esses generais aprenderam o código de boas maneiras servindo no Haiti? Perguntem-lhes o conceito que têm do López Del Paraguay: bebum, mulherengo, ditador, racista, enfim, um monstro que deveria ser linchado por ter dito a célebre frase: “muero com mi patria y com mi espada en la mano”

Tudo é absolutamente anti-nacional no Exército Bolsonaro. Não sei se retornaremos ao dilema Lott ou Castelo Branco. O Paraguay resistiu 5 anos, mortos 250 mil crianças, velhos e mulheres com o Brasil cada vez menos desnacionalizado o Exército torna-se policial.

Dependência ou morte.

Com o vice Mourão não desapareceu o integralismo fascista. Em 1932 houve cento e oitenta mil adeptos. Muitos militares tornaram-se integralistas com refratários ao imperialismo inglês, mas não ao norte-americano.

Os golpes invariavelmente são gerados no interior do Estado, por isso assumem a forma militar. O golpismo é constituído de golpes brancos que são semelhantes, porquanto não há luta nem resistência.

O push integralista foi exceção, pois a iniciativa partiu do exterior do aparelho de Estado. Ainda que haja anistia na tradição brasileira, os golpistas militares (1955 e 1964) não premiados, e quem defende a legalidade é punido.

O panorama ideológico em escala mundial é determinante na deflagração do golpe. A essência é o conflito entre capitalismo e socialismo. O nazismo foi o capitalismo imperialista contra o socialismo. Este no entanto não é o contrário do nazismo e sim da democracia liberal.

1964 não perdoou os derrotados. Puniu e perseguiu quem defendeu João Goulart.

O anticomunismo é a ideologia dominante do golpismo.

Golpe branco, 29 de outubro, 1945. Getúlio Vargas foi apeado do poder quando deixou de ser “ditador”. O avanço da burguesia chocou o imperialismo. Getúlio Vargas, o maior líder burguês da história do Brasil, segundo Nelson Werneck Sodré.

Os chefes militares entregaram o poder a um golpista: Café Filho. Já em 54 queriam implantar um regime do tipo 64. Houve eleição: JK candidato de Getúlio Vargas. Ameaçado de não tomar o poder. Foi salvo pelo Marechal Lott que impediu o golpe branco.

JK terminou o mandato depois de uma desastrosa política econômica entregue ao capital estrangeiro. Jânio ganhou de Lott e logo abriu o país ao imperialismo. Oito meses depois tentou uma jogada palaciana e renunciou. Os militares tentaram impedir a posse de Jango. Golpe militar clássico, isto é, branco. Em 1961 o golpe gorou por causa da Campanha da Legalidade de Leonel Brizola. Da renúncia de Janio em 61 à derrubada de Jango em 64 foi a época mais democrática da história do Brasil.

Em 2018 o capital reformado ganhou as eleições. Será que hoje a ideologia anticomunista está fadada a revestir-se de um perfil psicótico? Nelson Werneck Sodré informou que logo à primeira quinzena de 1964 o Exército prendeu trinta mil pessoas. Eis a magnífica síntese histórica: “para impedir o avanço democrático no Brasil, o imperialismo necessita de uma milícia a seu serviço ou o que vem a ser o mesmo, necessita destruir as Forças Armadas nacionais”.

O soldado é substituído pelo policial que agride o povo e não defende o país.

Werneck Sodré, por mais que odiasse a ditadura de 64 com as suas torpezas e torturas, não se arrependeu de ter sido militar, nunca se envergonhou do “mister das armas”. Denunciou o equívoco de alguns militares ingênuos que têm a pretensão de serem “os monopolizadores do patriotismo”.

Eis a questão difícil de ser respondida: Bolsonaro eleito presidente significa que a ditadura de 64 foi aprovada pelo povo? Sua vitória colocou a ditadura em um plebiscito: o povo votou a favor. É isso?

Bolsonaro, o novo Collor? Este concorreu com Leonel Brizola e chegou ao poder apoiado pela mais poderosa TV do país, o que não foi o caso do capitão com a evangélica TV Record, Silvio Santos e Bandeirantes.

Exército Nacional sem política nacional é impossível. É o que mostrou Nelson Werneck Sodré, o maior intelectual das Forças Armadas, o soldado marxista em uma instituição que tem fobia ao comunismo, principalmente depois de 1935 com a “Intentora”. Quase toda sua vida ele passou no Exército, amargurado em 1964, tendo conhecido (ainda que não fosse amigo) os militares golpistas. Foi o historiador da burguesia brasileira que se vale do Exército para exercer o seu domínio: uma burguesia fraca que vem ao mundo junto com o imperialismo e temerosa da classe operária.

A carteira de identidade da burguesia brasileira é a vassalagem ao imperialismo. Nas últimas décadas as empresas multinacionais compraram o território do sol e da água doce. O servilismo ao capital estrangeiro aumenta dia a dia. Ser patriota é crime. Lincon Gordon decretou que o nacionalismo era obsoleto e, no poder, os militares concordaram.

O anticomunismo do Exército veio como um pacote externo. A Escola Superior de Guerra derrubou Getúlio Vargas. O objetivo de 64, segundo Roberto Campos, era entregar as riquezas nacionais às empresas multinacionais, principalmente a Petrobrás, o epicentro da política por onde se consubstancia a luta de classes.

O projeto ditatorial gorou em 1955 quando JK ganhou de Juarez Távora. Lott foi o herói da democracia. Em 1961 o golpe fracassou por causa de Leonel Brizola enfrentando Orlando Geisel.

Em 64 não houve resistência. 68 foi o ano do AI-5. Golpe dentro do golpe. Médici é escolhido tendo por condestável Orlando Geisel. A rotatividade dos chefes tornou-se a característica da ditadura brasileira. O responsável pelo desastre não é mais tal ou qual general, mas as Forças Armadas. O imperialismo sofisticou em sua estratégia. Não há ditador permanente.

E o que se passa agora na atualidade militar que se confunde com a atualidade política? A análise marxista não pode negligenciar essa questão sob pena de passar levianamente por cima do legado reflexivo que nos deixou Nelson Werneck Sodré em vários livros, principalmente o singular e estupendo A Memória de um Soldado. Biografia. Narrativa épica. Parece Frederico Engels que manejava artilharia e conhecia as manhas de todas as guerras europeias. Por causa disso, na casa de Marx, as suas duas filhas intelectualizadas o chamavam de “general” Engels.

Nelson Werneck Sodré levou a sério a lição de Marx em Guerra Civil na França: é preciso estudar o que é o Exército e o que é o “povo armado”. Recordando Horta Barbosa e Artur Bernardes, Nelson Werneck Sodré referiu-se à adesão de militares e trabalhadores na batalha nacionalista do Petróleo. A aliança militar com trabalhadores depende de circunstâncias históricas e da luta de classes. Há também o outro lado: o militar cipaio como é o caso de Juarez Távora, espécie de Paulo Guedes fardado que queria vender o território e entregar as minhocas.

Nelson Werneck Sodré ponderou com augúria: as Forças Armadas não são avessas à democracia. Não constituem tropa de ocupação a serviço dos países imperialistas, a favor do latifúndio e do capital estrangeiro. Elas não deveriam ser destruídas e substituídas por guerrilhas ou por um “Exército Popular”. Isso é romantismo esquerdista em torno da vanguarda armada do povo, ou seja, considerar as Forças Armadas como o principal agente da transformação anti capitalista. Equívoco.  Supor que a missão das Forças Armadas é impedir que as riquezas nacionais não sejam enviadas para o exterior.  Claro que, em tese, o militar não pode admitir a venda do patrimônio e o esfacelamento da Nação, como queriam Bulhões e Campos, os gurus dos gorilas golpistas.

Evoco a reflexão de Nelson Werneck Sodré porque ela reapareceu em minhas conversas com o piloto e matemático Sylvio Massa a propósito da clivagem entre os militares reacionários da reserva e a possibilidade de surgir militar na ativa que se insurja contra o entreguismo do capitão Bolsonaro.

Lembrei-me dos saudosos Bautista Vidal e Glauber Rocha. Visão errônea é confundir militarismo com defesa militar do território. Bautista Vidal era enfático, talvez por ter trabalhado no governo Geisel, que os militares não iriam entregar a energia vegetal do futuro para os países hegemônicos que não têm sol, portanto dependem do petróleo. Glauber Rocha, por outro lado, filmou o golpe de Estado de 64 e não atribuiu aos militares a sua gestação, tanto que em seu filme Terra em Transe o papel do general anti-golpe de Estado foi desempenhado por Mario Lago, que era um cantor, um ator comunista. Ademais, o cineasta considerava a burguesia civil corrupta e vendedora da pátria. O contrário seria a atuação revolucionária de alguns militares na história da América Latina. Mirem o exemplo de Solano Lopez, de Martí, de Bolívar, de Alvarado e de Hugo Chávez.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Darcy or not Darcy, that’s the question




Em espanhol, La memoria de las memorias, chama-se o livro lindo da professora Haydeé Coelho sobre o exílio de Darcy Ribeiro no Uruguai. O exílio intelectualmente mais fecundo e profícuo da América Latina: quatro livros geniais, 2.000 páginas de 1964 a 1971.

Haydée o estuda na perspectiva certa, a bolivariana, sob o ângulo da Pátria Grande: edificar uma federação de Estados nacionais latino-americanos para se opor à Norte-Americana.

Darcy Ribeiro é o maior antropólogo da história da antropologia em escala universal. Não tem para ninguém. Por que afirmo isso? Ele fez a antropologia do continente latino-americano, sem deixar de trazer reflexões agudíssimas sobre os EUA, Canadá, como reconheceu a arqueóloga Betty Maggers, que traduziu O Processo Civilizatório para o inglês.

Haydée entrevistou em Montevidéu o brilhante antropólogo Renzo Pi Hugarte, ex-aluno de Darcy e tradutor de seus livros para o espanhol. Quem mais o conhece pelas entranhas filológicas e antropológicas. Renzo deu o melhor e mais profundo depoimento sobre seu amigo. Comovente. Profundo. Crítico. Talvez só um uruguaio poderia tê-lo feito. Uma beleza.

Um sedutor

Darcy era um professor nato. A aula ficava lotada. Um sedutor de mulheres e de homens. Falava muito bem. Era empolgado. Nada brochildo, tal qual acontece com a maioria da professorança universitária. Um teórico e um pesquisador de campo. Viu índio de carne e osso, e não apenas através de fotos. Dormia pouco. Trabalhava muito. Escrevia descalço. Sentava-se acocorado que nem caboclo. As idéias vinham-lhe em tempestade. Inventor de conceitos. Teve ajuda iluminada de sua mulher Berta, etnóloga exemplar, poliglota, romena, que chegou órfã em São Paulo, marxista. Darcy e Berta tiveram lua-de-mel no mato, e não no motel, entre os índios urubus-caapores. Caso único entre os antropólogos.

Ambos tiveram câncer. O de Darcy foi no pulmão, o de Berta no cérebro. Maldita doença.

Em Montevidéu, Darcy conviveu com os brasileiros Jango, Paulo Shelling, Glauber, Waldir Pires, Décio Freitas. Não teve é contato com Leonel Brizola, então distante por causa da briga com Jango. Os dois políticos ficaram sem se falar durante onze anos.

Na época de Montevidéu, Darcy ainda não tinha sólida formação marxista, mas com o tempo converteu-se no herdeiro de Marx como teórico do subdesenvolvimento e dos povos atrasados e espoliados.

O professor Baldus, em São Paulo, na década de 40, fez a cabeça de Darcy e Lévi-Strauss, o qual perde no entanto em quilometragem etnológica.

Baldus apresentou Darcy a Rondon.

Apesar de incursionar por outras veredas, Roger Bastide apreciava a obra teórica de Darcy Ribeiro, que nunca embarcou nas modas e modismos made in USA e Oropa.

Silêncio infame

Foi uma dádiva para o anticolonialismo nas ciências sociais Darcy não ter estudado na Europa nem nos Estados Unidos, mas conhecia em profundidade os maiores autores europeus e norte-americanos. Dona Margaret Mead foi lá visitá-lo. Deslumbrou-se com alguns capítulos de As Américas e a Civilização.

Enquanto isso, nas bandas de cá, ninguém falava dele nos cursos de ciências sociais. Silêncio infame. Criminal. Como se fosse responsável pelo golpe de 64. Mas sabotaram-no foi por inveja e mesquinharia. Ele era o the best one. Por causa desse boicote, FHC se fez presidente da República. Um dia algum pesquisador idôneo irá revelar o paralelismo Darcy-FHC. Quase todos os professores comeram mosca.

Do Canadá, Florestan Fernandes, Florestão, trocou cartas com Darcy. Foi o único, mas não furou o bloqueio da USP. A Cepal calou o bico, o Museu Nacional cuidou das couves, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido estavam em outras.

Na Venezuela plantou a semente de Hugo Chávez. Infelizmente não cruzou por lá com Ludovico Silva, tradutor de O Estilo Literário de Karl Marx.

Revista Caros Amigos
Ano XI número 132, março de 2008
Página 37: “Gilberto Felisberto Vasconcellos narra o exílio de DARCY RIBEIRO”
Compilação: Matheus Rosa.


sexta-feira, 17 de maio de 2019

Ordem e Protesto



Protesto em Floripa/2019 - Foto: Rubens Lopes

            Calderón de la Barca dizia: “cuidado com as águas mansas”. Estava tudo aparentemente em ordem e tranquilo, mas de repente desbotou a maquiagem que vinha desde o plano real: a voz da raiva tomou conta das ruas.

            Atenção. Protesto não é resistência, insurreição, tampouco indício de situação pré-revolucionária; todavia isso não significa, como quer o quietismo do pijamão universitário, golpismo contra a Dilma. Também não é como sugerem os ponderados afrescalhados, estéril manifestação volátil por não orbitar na esfera da representação oficial da política.

            A verdade é que a burguesia não tolera de que a política seja feita de modo extra-parlamentar. O bom senso, segundo os âncoras burgueses da TV, é ficar em casa quietinho e, na hora da voto, votar segundo os candidatos da telenovela. É isso a democracia safadamente identificada com capitalismo. Ora, o objetivo do capitalista não é a liberdade, e sim o lucro. Com ou sem democracia o importante é o lucro.

            Não é por acaso que a palavra mais usada pelos parlamentares e jornalistas é “democracia”, a qual não teria nada a ver com a luta de classes. Não vemos nenhum professor salsichão na TV falando que o capitalismo é contra a democracia. É preciso tomar cuidado com a edição do protesto feita pela TV. Não nos esqueçamos de que o sistema televisivo é totalitário desde as suas origens.

            O protesto tem que ir além da palavra de ordem pequeno burguesa, a qual dá a entender que o mal do mundo é inerente ao capitalismo, mas não é a essência do capitalismo. A essência deste é a exploração da força de trabalho.

            Quanto ao vandalismo, é preciso esclarecer que, como dizia Carlos Marx em O Capital, acumulação primitiva e originária do capital foi feita de maneira vândala, explorando o trabalho infantil e o trabalho das mulheres. Então, eis a verdadeira palavra de ordem: capitalismo é vandalismo, vândalo é o latifúndio agrobusiness, vândalo é o banco, vândalo é o plano de saúde, vândalas são as tarifas telefônicas, vândalo é o show pop, vândala é a indústria farmacêutica, vândala é a imprensa, a qual é a mais empresa do que informação. Os âncoras jornalistas correm o risco de não poderem sair de casa. Cagaço. Estes profissionais da mais-valia ideológica são terroristas.

            Os protestos começam a amedrontar a mídia quando os alvos dos protestos assumem dimensão anticapitalista. Estes alvos estão localizados nos consórcios de bancos, empresas multinacionais, televisão e grandes jornais. Sem esquecer o latifúndio Monsanto que produz comida cancerígena e remédio que não cura.

            Não é preciso dizer que o protesto vai pegar fundo se a classe operária entrar na parada, aí é que o bicho pega. Lenin dizia que o ataque ao partido político é uma estratégia da burguesia. O ataque ao partido político é incentivado pela telenovela. Hoje está na moda substituir o conceito de classe social por massa popular. Daí a mistificação do pluralismo que serve para esvaziar o conceito de classe social e de exploração do trabalho.

            É claro que o sarampão antipartido se justifica por causa da escolástica do sistema representativo. Mas isso não exclui a necessidade de se ter um partido de massas de esquerda. Enquanto não aparece uma direção revolucionária, como queria Leon Trotsky, é importante desenvolver uma gramática de desobediência civil expressa na tecnologia digital com epigramas e aforismos radicais. Mas, cuidado, dona Odete, a história não é feita pela internet.

Revista Caros Amigos

Ano XVII, número 197, agosto de 2013
Página 08: “Gilberto Felisberto Vasconcellos: Capitalismo contra Democracia”

Compilação: Matheus Rosa