sexta-feira, 17 de maio de 2019

Ordem e Protesto



Protesto em Floripa/2019 - Foto: Rubens Lopes

            Calderón de la Barca dizia: “cuidado com as águas mansas”. Estava tudo aparentemente em ordem e tranquilo, mas de repente desbotou a maquiagem que vinha desde o plano real: a voz da raiva tomou conta das ruas.

            Atenção. Protesto não é resistência, insurreição, tampouco indício de situação pré-revolucionária; todavia isso não significa, como quer o quietismo do pijamão universitário, golpismo contra a Dilma. Também não é como sugerem os ponderados afrescalhados, estéril manifestação volátil por não orbitar na esfera da representação oficial da política.

            A verdade é que a burguesia não tolera de que a política seja feita de modo extra-parlamentar. O bom senso, segundo os âncoras burgueses da TV, é ficar em casa quietinho e, na hora da voto, votar segundo os candidatos da telenovela. É isso a democracia safadamente identificada com capitalismo. Ora, o objetivo do capitalista não é a liberdade, e sim o lucro. Com ou sem democracia o importante é o lucro.

            Não é por acaso que a palavra mais usada pelos parlamentares e jornalistas é “democracia”, a qual não teria nada a ver com a luta de classes. Não vemos nenhum professor salsichão na TV falando que o capitalismo é contra a democracia. É preciso tomar cuidado com a edição do protesto feita pela TV. Não nos esqueçamos de que o sistema televisivo é totalitário desde as suas origens.

            O protesto tem que ir além da palavra de ordem pequeno burguesa, a qual dá a entender que o mal do mundo é inerente ao capitalismo, mas não é a essência do capitalismo. A essência deste é a exploração da força de trabalho.

            Quanto ao vandalismo, é preciso esclarecer que, como dizia Carlos Marx em O Capital, acumulação primitiva e originária do capital foi feita de maneira vândala, explorando o trabalho infantil e o trabalho das mulheres. Então, eis a verdadeira palavra de ordem: capitalismo é vandalismo, vândalo é o latifúndio agrobusiness, vândalo é o banco, vândalo é o plano de saúde, vândalas são as tarifas telefônicas, vândalo é o show pop, vândala é a indústria farmacêutica, vândala é a imprensa, a qual é a mais empresa do que informação. Os âncoras jornalistas correm o risco de não poderem sair de casa. Cagaço. Estes profissionais da mais-valia ideológica são terroristas.

            Os protestos começam a amedrontar a mídia quando os alvos dos protestos assumem dimensão anticapitalista. Estes alvos estão localizados nos consórcios de bancos, empresas multinacionais, televisão e grandes jornais. Sem esquecer o latifúndio Monsanto que produz comida cancerígena e remédio que não cura.

            Não é preciso dizer que o protesto vai pegar fundo se a classe operária entrar na parada, aí é que o bicho pega. Lenin dizia que o ataque ao partido político é uma estratégia da burguesia. O ataque ao partido político é incentivado pela telenovela. Hoje está na moda substituir o conceito de classe social por massa popular. Daí a mistificação do pluralismo que serve para esvaziar o conceito de classe social e de exploração do trabalho.

            É claro que o sarampão antipartido se justifica por causa da escolástica do sistema representativo. Mas isso não exclui a necessidade de se ter um partido de massas de esquerda. Enquanto não aparece uma direção revolucionária, como queria Leon Trotsky, é importante desenvolver uma gramática de desobediência civil expressa na tecnologia digital com epigramas e aforismos radicais. Mas, cuidado, dona Odete, a história não é feita pela internet.

Revista Caros Amigos

Ano XVII, número 197, agosto de 2013
Página 08: “Gilberto Felisberto Vasconcellos: Capitalismo contra Democracia”

Compilação: Matheus Rosa



sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ludovico Silva en Mi Sueño


Yo fui a encontrarme con Ludovico Silva en Venezuela en su Caracas querida, de calles petroleras y kapitalyzmus cadilac. Yo miraba el cielo para ver si era el mismo cielo del poeta. Yo andaba por los cafés quería tomar unas copas del antiguo vino con él, charlar y oir su voz. Tenía ganas de emborracharme con su poesia hecha de música. ¿Cuántas voces había en su filosofía?

Un muchacho que estudió griego para asimilar la obra de Karl Marx. ¿Qué locura es esa de hablar con las palabras escritas por un muerto?  ¿Que tenía yo que ver con la ciudad de Ludovico? En mi sueño iba por la noche y cantaba el día inútil. Si, un día inútil más. Me acordaba de lo que había leído de Leon Trotsky: ¿que és un día de trabajo? Me pregunté a mi vejez sin futuro: ¿por qué ahora quiero yo aprender a hablar español? Es para hablar con Ludovico, Ludo, loco, lúcido de ira y amor.

Su lengua dulce y coloquial es aquella que más me hizo sentir latinoamericano, pero sabía que Ludovico no conoció el Brasil, no oyó Villa Lobos, no vio las películas de Glauber Rocha, solamente leyó Darcy Ribeiro.

Yo sentía el tiempo del cementerio, yo soportaba con disimulo Caracas sin Ludovico. Los maestros conformistas andando en coches yanquis. Ninguna mujer me esperaba para decir cosas sabrosas en mis oídos. Juré no más viajar. Basta .De ahora en a delante me voy a viajar al rededor de mi cuarto. Hay que soportar la soledad sin alcohol y sin ninguna droga. La poesía no tiene boca para besarla. Antes hay que reírse en dolor.

Qué lindo nombre de libro este de Ludovico: Escribe y Pasa. Un día me voy a escribir sobre su obra. Como pudo el haber sido un borracho si escribió 12 libros sobre el tema de alienación en Karl Marx! La vida es hecha de misterios. La mercadería es el peor de los misterios porque hace mal a la felicidad.

Ludovico y yo odiamos el dinero. Siempre hay dolor de comprar y vender, incluso el alma que el diablo no la quiere más. Bello verso que me suena el fin del amor ya no hay luna en tus ojos. Estoy muriendo de miedo a la vida. Solo desde la tierra se puede ver el cielo.

Adiós, Ludovico.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

A Democracia da Cagada



Há várias maneiras de avaliar a democracia ou a falta de democracia em determinado país, mas seguramente um dos mais importantes critérios, embora isso choque a pudicícia dos moralistas, é o modo e o lugar em que as pessoas defecam no dia a dia, no trabalho, no escritório, na fábrica, na escola, no bar, na rua, no mato, no restaurante, na cadeia, na rodoviária, no hospital, no ônibus e no bueiro.

Sabemos todos que a defecação é um ato fisiológico humano universal: do nascimento até a morte. Seja qual for o país, a cultura, o regime político, a classe social.

Defecar é uma das exigências biológicas do ser vivo: chinelão ao mais graúdo ou bacana milionário.

Viver é defecar. Por isso não seria descabido falar em uma antropologia da defecação, porém do que se trata aqui não é empreender uma reflexão sobre a universalidade da defecação ou sua história, e sim compreender o modo particular como esse ato fisiológico se realiza na sociedade brasileira.

Eis a pergunta: existe um modo específico de o homem brasileiro defecar? Quais são as suas condições sociais e higiênicas? Como é a engenharia do vaso sanitário? De que maneira se faz a limpeza do ânus? Quais são os temores e as angústias de não conseguir encontrar um lugar apropriado para uma boa defecação? É possível falar em uma política pública de defecação? Como é que as prefeituras e os municípios encaram essa questão?

Pontos de vista

Pode-se ou não, quanto a isso, estabelecer a clássica clivagem entre esquerda e direita? O que é o ponto de vista reacionário ou progressista diante do homem defecando?

É possível afirmar que existe uma memória coletiva de defecação? Ou esse ato fisiológico está restrito apenas à experiência individual íntima e intransferível? Em muitos aspectos da nossa vida, o começo é o fim, mas, em se tratando desse assunto, o produto final - o excremento - revela a situação existencial do indivíduo, ou até mesmo a modalidade de seu caráter.

O exame de fezes é uma exigência clínica para o médico conhecer a quantas anda a saúde do paciente no interior de seu corpo e o reflexo disso em sua alma.

Esta pergunta faz sentido: de que modo e quantas vezes você defeca? - aí diremos quem você é. Na cultura da sociedade contemporânea foi a psicanálise que vulgarizou a conexão entre o caráter da pessoa e o aparelho digestivo, ao afirmar que comumente o indivíduo sovina, econômico, pão-duro padece de prisão de ventre, enquanto o esbanjador de dinheiro, o tipo perdulário, seria aquela pessoa com o intestino solto e diarréico, como se houvesse estreita correspondência entre o excremento e o interesse que se tem pelo dinheiro desde a mais tenra idade, quando a criança começa a lidar ou a brincar com suas próprias fezes.

O estômago é macho

A conhecida fase anal da personalidade humana é indissociável da função excretora, por onde são eliminadas do organismo as substâncias pelas vias naturais.

A alimentação constitui um dos maiores prazeres da vida. O estômago governa a vida, diz o provérbio. Luís da Câmara Cascudo, quem melhor estudou a história da alimentação no Brasil, lembrava que o estômago é macho, o sexo é fêmea, porque o estômago exige ser satisfeito de maneira implacável, enquanto o sexo pede ser desviado, substituído, sublimado.

É triste presenciar pessoas que sofrem de hipocondria do estômago, sempre desconfiadas ante o prato de comida, com medo de se envenenar ou de passar mal, sendo portanto incapazes de conhecer o prazer da digestão até a etapa final: a feliz defecação.

Júlio Camba, famoso nutricionista espanhol, falando sobre a fisiologia do gosto, defendia a tese de que um bom prato de comida deve nos proporcionar satisfação psicológica. Do que se trata aqui é a democracia da cagada, e não a cagada da democracia.


Texto publicado na Revista Caros Amigos
Ano XI, número 131, fevereiro de 2008
Página 37: “Gilberto Felisberto Vasconcellos disseca a cagada como fenômeno cultural”
Compilação: Matheus Rosa

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Educação sentimental do caminhoneiro marxista



Bota Sebastian Bach
na boleia
Tira o sertanejo universitário
dos ouvidos do caminhoneiro

O proletariado na estrada
         A viagem da mercadoria
                           A voz da fábrica
                                     O camponês
                                                     O pé
                                             O pneu
                   O pequeno burguês
A Petrobrás
                                          A greve geral.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Petrobrás e caminhoneiros: o clarão nacionalista contra o apagão imperialista




Ex-funcionário da Petrobrás, matemático, escreveu sobre Marx e a matemática, nacionalista, polígrafo, Sylvio Massa de Campos é observador analítico participante da Petrobrás, a síntese socioeconômica do país desde 1954 quando Getúlio Vargas se matou. De olho nessa empresa, eis o caminho para compreender a política – e mais: atuar na luta de classes em âmbito nacional e internacional.

Que se atente ao que acontece com o conflito entre os acionistas (rentistas) americanos e os trabalhadores caminhoneiros, não obstante os proprietários dos caminhões. Essa clivagem entre proprietários de caminhões e caminhoneiros não afeta a essência do conflito imperialista, consubstanciado no óleo diesel. A propósito, não há hoje setor da classe trabalhadora com poder de desencadear uma greve geral, como dizia Rosa Luxemburgo, capaz de paralisar o país e reivindicar o aumento salarial para o povo.

Atenção, Lênin dixit: greve econômica é greve política. A privatização internacionalizante da Petrobras acarretará maior superexploração do trabalho dos caminhoneiros pelos rentistas. Eis o que o povo deve bradar às ruas:

1- Caminhoneiros uni-vos.
2- Todo poder aos caminhoneiros.

Juscelino Kubitschek concentrou o transporte no rodoviarismo e daí resultou a relevância do caminhoneiro de norte a sul e leste a oeste.

O caminhoneiro é o proletário bandeirante de rodas movido a diesel e gasolina. Filho de povo navegador, não somos no entanto navegadores. Somos é caminhoneiros.

Karl Marx disse que a mercadoria não chega sozinha ao mercado. Quem a leva é o caminhoneiro. O governo oligárquico de Bolsonaro vai fazer de tudo para indispor o povo contra os caminhoneiros.

Atenção classe operária do ABC, alô sindicalistas metalúrgicos: não deixem os caminhoneiros sozinhos porque senão vocês serão trucidados pela burguesia local e internacional.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Educação Hevanjèlykan First


Os professores ateus e humanistas, influenciados pelo grego Epicuro, que foi objeto da tese de doutorado de Karl Marx, estão com os dias e as noites marcados para morrer. Mas, atenção, os perseguidos não serão apenas os admiradores de Epicuro e Demócrito.

Nada no céu
Tudo na Terra.

Esse apotegma de Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim a favor da vida com gozo e sem dor é um anátema para os pastores sadomasoquistas que se apossaram da outrora Ilha de Vera Cruz.

Os professores excomungados não serão aqueles  comunistas que preferem O Capital à Bíblia.

Os professores perseguidos, ineludivelmente expulsos das escolas com pontapé na bunda, serão os macumbeiros, os umbandistas, os catimbozeiros e os kardecistas.

Que se cuide a professorança devota do Candomblé. Lembrem-se de Edison Carneiro, marxista e folclorista, que na Bahia se protegia da polícia escondido em casa de santo.

Edison Carneiro, que era negro, entendido em Umbanda, colaborou no Dicionário do Folclore Brasileiro de Luis da Câmara Cascudo, o magnífico e inigualável livro sobre a cultura popular, corre o risco de ser queimado em algum Templum Hevanjèlyko.

Não estou a exagerar em meu sinistro prognóstico. Tenho observado que o principal adversário dos neuróticos pentecostais não é o materialismo dialético, e sim o Folclore, a interpretação supersticiosa do mundo que se origina em Dante Alighieri, a quem Luis da Câmara dedicou um livro mostrando que a concepção de Dante do céu é a mesma do povo do Rio Grande do Norte. Acrescente-se que o povo nunca leu o poeta florentino.

O bispo Edir Macedo certamente não aprecia nem Dante nem Luis da Câmara Cascudo.

Pasmem os ociosos leitores, como diria Miguel de Cervantes, o ponto em comum entre Cascudo e Marx é a epígrafe de Dante posta em O Capital: segue o teu caminho...

O ignaro e barulhento igrejário dos pastores odeia o folclore por causa das superstições e das crendices euro-afro-ameríndias. 

Tudo aquilo que diz respeito às crendices do povo que não passa pelo crivo da mercadoria evangélica é objeto de ódio e ataque violento, a ponto dos pastores cobrirem de porrada os umbandistas em favelas do Rio de Janeiro.

O ódio da igreja evangélica contra o folclore evidencia que este não é tão suscetível à mercadoria. No céu o pastor deixa a soberania para Deus em quanto quem manda na vontade eleitoral do povo é Edir e seus correligionários.

Lembra-me ter lido em algum maluco que ama o folclore que sem a oposição às igrejas dos crentes não há a menor possibilidade de existir revolução socialista no Brasil, conquanto haja proletariado e subproletariado crentes.

Os pobres no Rio de Janeiro e os oprimidos são crentes desesperados, informou Ney Lopes, marxista, brizolista, sambista, lexicógrafo do Rio de Janeiro, exímio conhecedor da cultura popular.

Ney Lopes, que foi amigo do meu amigo e professor Joel Rufino dos Santos, tem um verbete primoroso sobre Edir Macedo que trabalhou em loja de lotérica apadrinhado pelo governador Carlos Lacerda. O dízimo auferido dos crentes veio depois do trato rentista com o lotérico. Não é por acaso que Karl Marx meteu o sarrafo na loteria.

Quanto mais pobre a população, mais a Igreja Universal atua com sucesso. A ideologia da classe dominante não pode prescindir da manipulação popular feita pelos pastores ruidosos. Isso ficou evidente com a vitória de Jair neste 2018.

Trinta por cento das gentes brasileiras estão seduzidas pelas vozes evangélicas imbecilizantes que encabrestam e escolhem os candidatos. Nunca houve militância tão aguerrida, tão eficaz, tão persuasiva.

Nada se lhe compara. Partido político algum.

Bancada evangélica. Estado teocrático. O crente está imbuído de uma convicção que transcende a qualquer racionalidade. Quem não está comigo está com Satanás. Meu Deus é melhor que o seu. Milícia evangélica. Conforme o andar da carruagem, os evangélicos estarão armados dando tiro contra o folclore do povo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Deus e os cientistas políticos diante da façanha eleitoral de Jair


É estarrecedora, mas não inexplicável, a vitória de Jair. Eu não sabia de um programa na TV Bandeirantes no qual um palhaço o representava durante quatro anos sendo chamado de “mito, mito, mito”.

Julgava que “mito” fosse uma denominação dada para atribuir-lhe uma espécie de carisma no sentido da graça. Nada disso: “mito” foi uma baixaria criada dentro de um programa de auditório.

Eleito, rindo com escárnio, explicou que mito vinha de um apelido de infância no interior de São Paulo. O chamavam de Palmito, porque ele era um homem magro e alto, daí a corruptela “mito”.

É conversa fiada que ele teria despencado do céu, sem vínculo com as relações sociais ou com a mídia. Na verdade é um prato que está sendo cozinhado há muito tempo.

Logo que ganhou a eleição deu uma declaração jocosa: nenhum cientista político é capaz de explicar minha vitória. Foi coisa de Deus. A ciência não explica Deus. A ciência política não o explica. Nenhum cientista político é capaz de arrumar uma explicação para sua façanha eleitoral. A ciência política é impotente. Só Deus.

Os cientistas políticos são ludibriados pela estatística eleitoral. A ciência política exibe uma lamentável indigência teórica. Os cientistas políticos apenas comentam as pesquisas eleitorais. Neles não há interação entre estrutura de classe e estrutura política, enfim não há gênese histórica. É uma crônica anedótica e superficial que não tem nexo com o passado.

Os EUA nas mãos de Trump e o Brasil sob o comando do capitão, que o povo já está começando a chamar de capetão. Daqui a dois anos Trump vai para casa tomar capilé e Jair não terá o seu coleguinha por mais tempo.

Nunca na história do Brasil houve um total alinhamento com o imperialismo gringo. Banco Central com autonomia irmanado com o banco estrangeiro. Adeus Petrobrás. O propagado “nacionalismo” de Jair é a favor dos EUA.

A desnacionalização do país traz a deformação sobre a história do golpe de 64. A safadeza que não houve ditadura, que a tortura foi fofinha, que o exílio foi de mentirinha, e quem estava realmente querendo dar o golpe eram os marxistas teleguiados por Moscou. Retorna a mistificação que 64 salvou o Brasil do abismo comunista que iria matar todas as nossas criancinhas.

As Forças Armadas voltam a ser objeto de reflexão. Haveria ou não uma ala nacionalista no Exército brasileiro? Afinal, o Exército está inteiramente alinhado à desnacionalização feita pelas multinacionais?
A desnacionalização do território coloca em risco a existência das Forças Armadas. Paulo Guedes é um notório representante do capitalismo monopolista vídeofinanceiro alienígena.

Escola sem partido mas com Bíblia sob a hermenêutica evangélica do bispo Edir Macedo. Vamos cortar os professores de história. Toda a referência ao golpe de 64 será proibida. O que houve, e o que deve ser ensinado pelos professores de história, é movimento de 64, uma onda, um evento, quase uma moda.
Golpe é uma expressão que não poderá ser usada, nem ditadura militar. Porque essas duas expressões não condizem com a realidade que tivemos quando houve a jubilosa intervenção de Castelo Branco, interrompendo o processo democrático trabalhista de João Goulart, que aparece como um bandido. Um bandido que deveria ser expulso e assassinado antes de ir para o Uruguai.

Atente-se que Jair em 1964 não tinha mais que 10 anos, portanto não participou do golpe. Ele gostaria de ter participado, mas era um pirralho.

Vejamos o roteiro sinistro. Abrir o país ao capital estrangeiro, considerar o capital estrangeiro como algo benéfico para o povo e para o país. É por isso que foi amaldiçoado o que ocorreu antes de 64, assim como depois quando as chamadas forças de esquerda tomaram o poder, com a ressalva de que não sei se ele acredita mesmo que o PT tenha alguma coisa a ver com comunismo.

Do ponto de vista histórico, a antítese do bolsonarismo encontra-se no nacionalismo trabalhista brizolista que está morto, portanto Jair não tem opositor real. O seu opositor histórico é o brizolismo marxista. Leonel Brizola é odiado por ter arregimentado o povo na defesa de Jango em 1961 com apoio de uma parte das Forças Armadas. Foi mais ou menos isso o que aconteceu com o Chávez na Venezuela, que é o fantasma para Jair e a direita militar.

O Pentágono demonizou Hugo Chávez, demônio tanto para Trump quanto para Jair. Caluniaram Simão Bolívar, que, aliás, era militar. Estão dando um tiro no próprio pé. Para lembrar meu amigo Bautista Vidal que costumava conferenciar no Clube Militar, os militares brasileiros estão se desqualificando a si mesmos.

O bolivarianismo não é de forma alguma uma contrafação corrupta e apatriótica na América Latina. Jair é antibolivariano, o equivalente dele na Venezuela foi o general Santander. Não é por obra do acaso que o banco Santander foi generoso em sua campanha eleitoral.


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Quebra cabeça do cinema novo


Gilberto Felisberto Vasconcellos está com livro novo na praça. Escritor profícuo, um dos pensadores mais importantes da cultura nacional, ele tem se dedicado a refletir com cada vez mais profundidade os desafios postos pela realidade brasileira. No livro "Quebra cabeça no cinema novo" ele faz um inventário sobre como o imperialismo cultural foi crescendo e se impondo sobre a cultura brasileira, principalmente depois da morte do extraordinário cineasta nacionalista Glauber Rocha, em 1981.

Diz Gilberto:

Não temos território.
Não temos fábrica de antibiótico.
Não temos banco.
Não temos moeda.
Não temos sol.
Não temos água.

Consequentemente não temos cinema brasileiro.

O quebra cabeça é o domínio da telenovela, cujo o padrinho foi Carlos Lacerda, por isso mesmo este está em foco na capa do livro.

Que o leitor não fique chocado.

Carlos Lacerda ajudou a derrubar Getúlio Vargas e foi um dos golpistas de 64. Esse golpe está na essência da filmografia do Cinema Novo.

***

A ênfase de Gilberto Felisberto Vasconcellos, ao discutir cultura e cinema, é posta pela primeira vez na constelação Walter da Silveira, Roberto Pires e Glauber Rocha. A abordagem é regional para entender a dialética do nacional e o universal.

O ponto de partida é o marxismo do crítico Walter da Silveira, que foi o fundador de um cineclube nacionalista e revolucionário em Salvador.

"Tudo começou lá pela metade dos anos cinquenta.
 quebra cabeça não está só no cinema.
O quebra cabeça está no Brasil e na América Latina.
A contradição é fílmica e existencial.
É a contradição nação versus imperialismo."

Não é preciso dizer da atualidade deste livro.
Trata-se de um libelo contra o entreguismo que está rolando nesta trágica atualidade.

O livro é uma produção independente do autor e precisa se pagar. Então, não hesite e faça já o seu pedido: Para Comprar Clique aqui


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Marxista Leninista Revolucionário Bolivariano da Pátria Grande é Jair Bolsonaro


Com a burguesia comercial de auditório Jair está dando força para a difusão do marxismo.  Claro que é absurdo dizer que Jair é um marxista revolucionário enrustido. Atenção, apavorado leitor, não sejamos malucos. Estará ele fomentando a luta de classes entre burguesia e proletariado?

Impressiona-me como está se falando de comunismo, socialismo e marxismo. Fala-se disso muito mais do que na época da Guerra Fria, isto é, na guerra de nervos.

Outro dia um chofer de taxi, conversa vai, conversa vem, perguntou-me o que é socialismo. Pasmo com a pergunta não lhe dei, no entando, o site Olavo Lava Égua Sado Anal Bolsonara, mas quis saber o motivo da pergunta. É que ele estava ouvindo falar muito disso com a notoriedade de Jair.

O que é comunismo?

Sem querer o capitão está ensejando a curiosidade sobre a revolução proletária, a despeito da escola sem partido.

O nome de Karl Marx é um espectro que ronda o chopinho do general Mourão jogando vôlei de praia.

A política reduzida a Lula e ódios pessoais é uma enfermidade infantil do esquerdismo. A patota empoderada na Barra da Tijuca acha que a história é feita por homens especiais, heróis de Carlyle, a exemplo dos hermanos bolsonarecos nascidos com a vocação weberiana para a política.

O herdeiro familiar de Roberto Campos está brilhando no Banco Central, cuja autonomia leva o Estado para o túmulo, advertiram Arturo Jauretche e Leonel Brizola.

Não vamos cair no engodo de reduzir a era Jair ao conflito entre fascismo e democracia. Afinal, a luta de classes é o ou não é o motor da história?

É preciso afastar o simplismo: civil é bom, militar é ruim. Trotsky no México apoiou o general Cárdenas, e em uma guerra apoiaria o Brasil de Getúlio Vargas contra a Inglaterra democrática de Wilson Churchill.

Há duas coisas que não podemos deixar de lado: a abordagem psicanalítica sobre o palácio da Tijuca e a expansão evangélica que está dando porrada na tradição afrotupi nos morros cariocas.

A luta de classes se dá entre o bispo Edir Macedo e Luís da Câmara Cascudo, o filósofo da teologia popular brasileira.

Quanto à libido sexualis de direita, inaugura o bolsonarismo uma nova etapa desde o integralismo da década de 30. O integralismo era a projeção alucinada de um Curupira nacionalista sem orifício e com ânus ocluso. 

Diferente do anauê de Plínio Salgado é a histerogenia de Janaína Pascoal ao entrar no teatro da política.

Escândalo lava-jato. Empenhada em tirar Dilma do poder, a professora de Direito Penal ficou conhecida na crônica jornalística como a mãe do diabo, posto que o diabo é um personagem masculino por excelência. O diabo não faz parte da doçura do seio feminino.

Tenho me perguntado em que região do corpo se concentra a performance anticorrupção. Provavelmente essa energia é de caráter anal defecativo mais que uretral e mamário. Há uma intensa auto-satisfação neste dualismo: eu, a gostosa incorruptível; os outros e as outras, imorais e desonestos. 

A escuta psicanalítica desde Sandor Ferenczi se interessa pelo estágio sado-anal com foco nas fezes e sua conexão com o dinheiro. O tesão de acumular grana. A prisão de ventre é erótica e implica a destruição do objeto. Junta-se retenção infantil das fezes com desejo crematistico. 

Sandor Ferenczi da Húngria foi considerado um psicanalista marxista e elogiado por Wilhelm Reich, o autor de A Psicologia de Massa do Fascismo. Que haja paralelismo e correspondência entre Janaína Pascoal e a fisionomia enrijecida dos pastores evangélicos não resta a menor dúvida.

Nas últimas eleições o pastor foi o guia. A psicologia de ambos está fundada no jejum, jejuno, jejunum, que significa vazio, magro, estreito, daí a conexão com o intestino. Jejunum intestinum.

A abstinência ou a fome faz repousar o órgão digestivo. Pode-se dizer que a direita evangélico-bolsonara está em contradição com a ideia da fartura do povo brasileiro acenada pelo folclore.

Viva a fartura que a miséria ninguém atura.

O intelectual sambista Ney Lopes encarna o povo fluminense, e não o Bishop capitalista Edir Macedo. A Igreja Universal do Reino de Deus é uma corporation multinacional. Importou dos Estados Unidos a teologia pentecostal da prosperidade depois de ter sido criada numa loja funerária em 1973 na Aveninda Suburbana.

Coincidência espantosa é que Edir Macedo com 17 anos foi contratado como servente da loteria do Estado da Guanabara. Loteria não deixa de ser a religião do dinheiro. Seu padrinho: Carlos Lacerda. Este é o político que está na base de toda a direita carioca, conforme informou Gunder Frank.

Carlos Lacerda na política e Roberto Campos na economia, os dois ilustres golpistas de 1964.
Edir Macedo com a sua televisão é responsável pela decadência psíquica e cultural das camadas pobres e oprimidas.

Umbanda é a religião brasileira com cabloco e preto velho, orixá, voduns, Cosme e Damião, os gêmeos oferecendo comidas, bebidas e doces. Caruru de Ibêji é a iguaria condenada pelos cultos evangélicos como manifestação demoníaca.

A direita é que gosta de andar com revólver no bolso. Luís da Câmara Cascudo antecipou a loucura agressiva da mucosa gástrica de Donald Trump: a paz é um fenômeno digestivo. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O que diria o poeta Pasolini about kit gay


Se houver apenas uma transa homossexual, isso não tira por si só o adolescente da condição heterossexual.

A tolerância em relação ao homossexual é um privilégio da elite culta. A massa popular é hostil à homossexualidade, que é um tabu engendrado pela fobia bíblica.

Pier Paolo Pasolini sublinhou a relação homossexual e política. Sua perseguição na Itália era mais de natureza política que sexual. Pasolini era marxista homossexual. Ele não fazia proselitismo sexual. É famosa sua declaração de que dois homossexuais fazendo amor é completamente diferente de um homossexual com um heterossexual. A homossexualidade é interclassista, pobre, rico e remediado. Ou senão proleta, subproleta, burguês, pequeno burguês.

Contratado a peso de dólar na Barra da Tijuca, tomando vinho branco com camarão seco, o gringo Steve Bannon sacou que o gênero, cuja discussão começou em 1975 na psicanálise dos EUA, iria dar copiosos frutos com a embromação “ideologia de gênero”.

Vamos enrolar aquele eleitorado cretino do Terceiro Mundo.

O trabalhador tem maior ojeriza que seu filho ou filha seja homossexual. As pessoas têm dificuldades de encarar a bissexualidade, por isso reprimem o homossexual. Realça-se que a bissexualidade orgânica não tem nada a ver com a psíquica. Há homossexualidade em homens viris e em mulheres de acentuada feminilidade.

O suposto “kit gay” atuou assim: o professor petista, perverso, insinua, provoca, engendra nas crianças o vício, a doença, o crime da homossexualidade.

Em termos eleitorais, de nada vale afirmar que a aversão ao homossexual mostra o temor de si mesmo pela homossexualidade.  Se a histeria anti-homossexual é reacionária, por outro lado deu-se enorme destaque para a passeata gay. Esta tornou-se um espetáculo fabricado pela indústria cultural para deixar em segundo plano a política e a luta de classes.

Cadê o proletariado reprimido sexualmente?  E as mulheres do povo privadas de amor, seja homossexual ou heterossexual? Fato é que não foi didatizada a contento a bissexualidade orgânica do ser humano.

Para o capitão que se apresentou viril e destemido, a homossexualidade é forjada nas escolas sob a influência de mestres degenerados pela “ideologia de gênero”. O surpreendente é que isso contribuiu para definir o resultado das eleições. O “kit gay”, além de petista, é travestismo. Os bolsonarianos identificaram petista com pederasta.

Goethe dizia que a pederastia é tão velha quanto a humanidade. Absurdo seria ver na câmara dos deputados uma campanha dirigida pela Janaina Pascoal reivindicando a extirpação cirúrgica da homossexualidade.

A psicanálise nos informou que as glândulas sexuais são condicionadas por questões psíquicas. Na maioria das vezes o homossexual é tido com um sujeito anômalo que se rebela contra o que é natural. O amor homossexual é o amor pelo amor.  É amar sem procriar, por isso é perseguido, por ser um amor anti-bíblia.

Afinal, há que se perguntar o que é a mulher bolsonaro. Terá ela ódio ao peito da mãe? O que quer uma mulher bolsonaro? Como caracterizar a mulher evangélica dentre todas as mulheres? Trata-se de um útero específico? A mulher bolsonaro parece não admitir que haja dominação do macho sobre a mulher nem que exista família patriarcal, tampouco ela se vê explorada na sociedade capitalista.

A mulher bolsonaro não está nem aí para a existência do trabalho doméstico não pago feito pelas mulheres. A mulher bolsonaro é despolitizada em seu corpo e alma. Ela não se envergonha de si ou é uma tremenda sadomasoca? Simbolicamente o que significa para a mulher bolsonaro o pênis bolsonaro? Não é de menor importância saber o que significa psiquicamente para ela o que seja o pênis bolsonaro.

Há muitos psicanalistas que encontram dificuldade em explicar o amor homossexual. Por que a homossexualidade tem sido tão perseguida? A homossexualidade masculina é mais proibida que a feminina. Esta é tolerada em função do olhar macho, cada vez mais fetichizado nas propagandas comerciais. 

A luta contra a homossexualidade começa com o judaísmo. Monoteísmo se confunde com monossexualidade. A Bíblia é hostil ao amor homossexual porque nele está ausente a procriação.

Na Grécia  era permitida e incentivada a homossexualidade, a não ser entre os escravos. Depois a Igreja Católica proibiu o amor entre pessoas do mesmo sexo.

É uma questão sexual o jejum em todas as religiões. O devoto evangélico homenageia o jeju, mas abomina a caridade. O jejum é egoico. O meu barato, o lance de todo religioso, é querer ir sozinho para o céu. Ganhar na loteria só para si. Lembro que Edir Macedo teve seu primeiro emprego numa lotérica. Foi aí que desabrochou a sua vocação videofinanceira abençoada por Deus.

Em todos os cultos o jejum desempenha a função de honrar o divino. O diabo não deixa de ser um fenômeno gastrodigestivo que envolve diarréia e prisão de ventre.

Depois de comer uma feijoada ninguém quer fazer guerra. Nem o Steve Bannon espiroqueta ketyxupi que comeu BigMac no Donald Trump.

É repugnante a língua portuguesa, falada e ouvida, nas igrejas evangélicas ensurdecedoras.

Os psicanalistas húngaros, como é o caso de Sándor Ferenczi, que foi marxista e admirado por Sigmund Freud, diziam que na infância tinha início a relação do falar com o defecar.